As redes nasceram em mim no encontro da sensorialidade com a cooperação

27 03 2009

Até dez anos atrás, meu destino parecia totalmente voltado para as artes. Pintora desde os 8, primeira encomenda de quadro aos 12, primeira exposição aos 15, reconhecimento da mídia aos 19. Adolescente eu sempre respondi que seria artista quando crescesse. Entretanto, até os 18 ignorei a importância de duas outras artes latentes em mim, que eu praticava desde os 6 e 15, respectivamente, e que com 19 se tornaram uma necessidade: a dança e a música.
Ao contrário da estrada reta que foi a pintura em minha vida, a dança foi um verdadeiro labirinto. Balé clássico, moderno, jazz; danças árabe, indiana, grega, russa, espanholas; técnicas populares, sagradas, terapêuticas; de tudo eu experimentava. Chegando até a fronteira das práticas meditativas de Chi-Kun e Tai-Chi-Chuan, e a arte marcial do Kung Fu. E assim sempre quis conhecer algo mais sobre o movimento do corpo humano. Dessa forma, não priorizando a dança na minha carreira, mas sempre mantendo-a presente, eu acabei entrando cedo na adolescência e desde os 9 anos saia em festinhas, onde passava cerca de 8 horas dançando sem parar. Um hábito que tenho orgulho de manter vivo, quando sobra tempo para o laser.
Já a música, foi quase que passada pelo sangue, pela minha família musical, e pela maioria de meus amigos, que sempre vieram a ser músicos, onde quer que eu fosse. Apesar dessas oportunidades, também aí nunca consegui adquirir a disciplina de aprender bem um instrumento. E assim, por comodidade, escolhi a voz. Ao longo desses 15 anos, foram variados os convites para integrar bandas, de rock, de samba, de bossa, forró ou mpb. Mas eu sentia também com a música, sempre a fome de algo mais, que não cabia em um só gênero musical. E assim, passei os últimos 10 anos pesquisando, de forma autodidata, as músicas tradicionais de todos os continentes, e alguma coisa de física acústica. Me concentrando de quase três anos para cá em técnicas vocais antigas.
A verdade é que eu me encontrei nas artes, quando me encontrei na dança e na música. Foi descobrindo uma forma de criar que correspondia à minha essência: a improvisação. Junto com a improvisação, que descobri quando caí de para-quedas, em um workshop de dança contemporânea, eu conheci a arte da performance, que vem a ser hoje, o meu xodó, já há 10 anos, no campo artístico.
A relação da Arte com as Redes é engraçada em minha vida, porque mudou totalmente o destino que eu tinha imaginado para minha vida. E tudo foi muito rápido. Aos 20 anos, enquanto eu me descobria nas artes, eu morava na França, onde estive por 7 anos, estudando e buscava formas de ganhar dinheiro para viajar pela Europa, eu comecei a trabalhar como burro-de-carga na produção de projetos culturais e execução de campanhas de marketing da pior qualidade, entre outros. Me aproximei de uma associação que fomentava a difusão da cultura brasileira na França e participei da fundação de uma outra, similar (porém unicamente voltada para cinema e televisão), com a qual trabalhei como correspondente mais tarde ao voltar ao Brasil, por 3 anos. E assim, decidi fazer um estágio na melhor rede de televisão que já conheci, a ARTE, franco-alemã, e patrocinada na época por apenas um único sponsor, uma marca de relógio suíço. Caí na produção audiovisual e comecei a fazer vídeos na faculdade em que estudava. Pronto, eu havia me apaixonado pela tecnologia. E durante um ano ela namorou com a dança, enquanto eu levava a câmera emprestada da faculdade para filmar dançando nas jam sessions do centro de dança contemporânea de minha cidade.
As Redes nasceram em mim no dia em que escolhi integrar uma matéria de prática de pesquisa que misturava, dança, vídeo, som e internet. Estávamos em setembro de 1999 e eu, junto com 20 outras pessoas batizamos o coletivo ESP, que já realizou 12 projetos diferentes desde então, em rede, e com diversos países. Através do Coletivo ESP eu tive a oportunidade de fazer workshops com os performers franceses mais importantes da última geração Fluxus, e conheci Kathelin Gray, que vinha a ser a pessoa responsável pelas relações humanas dentro do importantíssimo projeto Biosfera 2. Lembram dele? E neste ano entendi de forma extremamente sensorial o primeiro conceito importante em Redes: Sinergia.
Neste projeto aprendemos a criar dispositivos de baixa a média tecnologia, com ou sem uso de internet, que permitiam a interação audiovisual entre espaços distantes geograficamente, em/sem tempo real. Um momento lindo e que apesar de eu ter voltado para o brasil em 2001, não acabou. Colaborando virtualmente com o Coletivo ESP, realizei ainda 2 performances, uma ação internacional (Brasil, França, Argentina, Macedônia e Eslovênia) contra a escravidão tecnológica em 2002, e outra unicamente entre Brasil e França, em 2003. Dessa forma entendi um segundo conceito importante para mim: Telepresença.
Em 2002, foi o ano em que participei de um documentário sobre o Fórum Social Mundial e que abre uma paréntese interessante. Em meio a idealistas de todo o planeta, reinvindicando igualdade e justiça social, estava um monge vestido de laranja meditando sozinho no meio do parque, todos os dias. Fomos lá e perguntamos a ele: “porque em meio a tanta gente clamando por uma nova sociedade, você fica aqui sozinho em silêncio?”. Ele respondeu: “uma nova sociedade só será possível quando o homem aprender a ficar em paz consigo mesmo. Para mudar o mundo precisa-se começar de dentro. Eu estou ilustrando isso”.
Em 2003, eu já estava no Brasil há dois anos e a produção tinha se tornado uma atividade mais importante em minha vida. Comecei a criar projetos socio-culturais, como no passado pintava quadros, e a procurar captadores de recursos para eles, já que afinal eu era “apenas uma artista”. Fui indicada para uma pessoa do governo estadual, que disse que precisava que eu escrevesse um projeto de cooperação para o Brasil e a França. Este projeto deveria reunir uma universidade, alguns órgãos governamentais e empresas para que colaborassem em torno de um site. Ele disse que deveria ser “como uma autarquia, mas menos burocrático e mais democrático que isso”. Eu acreditei, e levei 3 meses pesquisando sobre formas de chamar isso. Eu enfim descobria as Redes!
O processo de elaboração do plano de negócios desta Rede foi interessante, porque Redes não costumam ter forma jurídica e apesar do projeto ser um site acabou sendo isso o que me pediram. Não sei quais eram as intenções naquela época, mas isso acabou sendo o que reforçou o projeto e permitiu que por fim acabasse se realizando sem padrinhos. E hoje há 3 anos se sustenta unicamente com esforços dos associados, como é possível de se fazer.
Em 2004 e 2005, enquanto eu entrevistava todos os interessados nesta futura Rede, quanto às suas estruturas jurídicas de decisão e cooperação, para fazer algo efetivamente democrático, consegui compreender o terceiro conceito que considero importante quanto a este tema: Identidade. E acredito que o resultado do projeto tenha ficado bom, pois passei a ser indicada para ajudar em projetos internacionais de cooperação desde então. Além da França, sendo chamada para iniciativas do Brasil com a Espanha e com a Itália, e da França com a América do Sul.
Por fim, a formação jurídica da tal Rede veio a ser uma associação, que ao meu ver, no Brasil, é a única forma passível de efetivamente atuar entre os 3 setores. Esta crença é reforçada pelo fato de eu colaborar com outra associação francesa que é apoiada por duas Redes Internacionais importantes, uma da Unesco e outra das Nações Unidas. Uma pequena associação que permitiu que duas Cátedras da Unesco fossem criadas em países diferentes e já organizou Grupos de Trabalho entre parceiros de diversos setores, ao longo de 10 anos.

Mas as Redes não foram na minha experiência apenas um mar de rosas e são os seus desafios que me trazem aqui. Na verdade o que aprendi até aqui com as Redes é que existe uma proporção entre a horizontalidade de decisão e o esforço de mobilização nelas. Com efeito, observo que quanto mais virtual a rede, ao contrário do que dizem as teorias, menos trocas efetivamente acontecem. Apesar de serem de altíssimo nível na medida em que a telepresença se manifesta por mais variados canais. E por outro lado, quanto maior a capacidade de mobilização que a Rede trás, embora mais resultados concretos sejam observados, mais ocorre a tendência humana de concentrar informação e poder.
Por isso, se falo mais sobre arte que sobre gestão ou sociedade neste post, é porque minha contribuição no tema Redes Sociais é resultante da sorte de ter tido uma experiência sensorial de interação artística, que é a forma mais prazerosa de vivenciar a rede; e o que pude vivenciar na área de cooperação internacional, que é a mais complicada e lenta forma de constituir rede. Dois opostos complementares.

Volto ao monge e me digo que nada é por acaso. Que quem se interessa por Redes tem uma missão social. Porque a Sociedade hoje é Rede. Mas se “é preciso começar por si mesmo”, a única coisa que meus 30 aninhos permitem que eu diga, é que não são as idéias e sim os sentidos que fomentam a cooperação em rede.
Um último exemplo engraçado. Leio livros do Pierre Lévy há dez anos, desde que entrei no coletivo ESP. Desde 2006, vendo estudando sobre administração, telepresença, redes, cooperação e ele sempre aparece em algum artigo que eu esteja escrevendo. Em 2007, cheguei a vê-lo em uma palestra que deu, organizada pela Rede São Paulo. Fiz uma pergunta, ele respondeu, e nada mais aconteceu. Hoje faço parte de seus contatos em uma ferramenta de relacionamento não por causa de minha pergunta, ou pelo facínio por alguns de seus livros, tão pouco pelos amigos que me levaram até aquela palestra naquele dia, que de alguma forma estavam envolvidos com o evento também, tão pouco pelos trabalhos que faço em redes sociais, ou qualquer projeto em que ele hoje esteja envolvido. Nosso vínculo hoje vem do fato que temos um amigo em comum, que vem a ser o curador do primeiro festival que o coletivo ESP participou, no ano 2000. Se hoje me pedissem para descrever a forma de uma rede, eu responderia: um ciclo.

A minha contribuição na Escola de Redes, como meu caminho me mostrou, é apontar direções para os mistérios da interação cultural, que a rede traz.

Minhas referências, das quais falarei mais detalhadamente ao longo do ano (agora exclusivamente concentradas no mestrado) são Capra, Maturana, Lévy, Castels, Barabási, Watts, e a interação que faço com os trabalhos de Tuomela, Desrosche, Moles, Bohm, Khrishnamurti, Bourdieu, DeMasi, e Checkland.
No Brasil, costumo indicar o Augusto de Franco como referência, pelo fato de que incorpora o lado “social” das redes com a nossa visão cultural, além de escrever de forma acessível, e com espírito de quem ama estar sempre aprendendo e não teme compartilhar seus conhecimentos.





Sobre o Creative Commons

25 02 2009






O que vem depois do desenvolvimento?

2 05 2008

Parece que já podemos todos observar que as populações mais densas tiveram sempre de passar por uma organização política que acabou condenando-as à finalidade de necessitar difundir tecnologias e fazer guerras para manter um patamar de desenvolvimento. Um processo que embora tenha sido o principal motor das principais invenções técnicas, difusões tecnológicas e estruturas organizacionais que fundamentaram a sociedade moderna. É também um ciclo vicioso que disfarça uma fórmula sistematicamente utilizada por várias civilizações, para que se tornassem dominantes, em momentos diferentes da evolução humana.

Primeiro ocorre a divisão do trabalho da população depois o nascimento da burocracia que causa o surgimento de uma nova camada populacional, sedentária, com enorme necessidade de centralizar o poder, conquistar novos territórios e descobrir novos produtos, que tornem a sociedade mais competitiva com relação as outras.

O que vem depois disso para a sociedade? Li um livro que me fez pensar no assunto:

DIAMOND, Jared. Armas, Germes e Aço: os destinos das sociedades humanas. Rio de Janeiro. Editora Record. 2006

Jared Mason Diamond iniciou sua carreira na área de fisiologia, ampliando seu campo para as áreas da biologia, da geografia e da ecologia. Professor de Fisiologia desde 1966, na Escola de Medicina da Califórnia – UCLA, hoje pesquisa ali [3], Geografia e Sociedade Humana, e Biogeografia.

A reflexão que desenvolve neste livro explica como os fatos ocorridos nos últimos cinco séculos, podem ser enxergados dentro de um processo interligado de conquistas, de disseminação de epidemias, de práticas de genocídios e de miscigenação cultural, que provocaram as atuais desigualdades do mundo moderno. Ao mesmo tempo, este processo é conseqüência de outros processos naturais da evolução humana que começaram há mais de treze milênios atrás, através das práticas de cultivo de plantas e da domesticação de animais e hoje culminam numa sociedade global.

Armas, Germes e Aço: os destinos das sociedades humanas realiza uma associação da história da produção dos excedentes de alimentos com a geografia dos fluxos migratórios e seus impactos biológicos e associa diversas metodologias científicas e abordagens de diferentes áreas. Assim, revela que as ciências modernas, poderiam ser um caminho para a integração de conhecimentos em diversas áreas. Beneficiando a populações de todos os eixos, com seus níveis de desenvolvimento, dentro de uma perspectiva não-excludente, abundante.

A Diversidade entre as regiões ao longo da história é um dos fios condutores deste livro. Se a espécie humana se distinguiu dos gorilas, um dia, também os grupos de seres humanos se diferenciaram entre si, em função das regiões onde se estabeleceram, ao longo da evolução humana, e principalmente desde a era glacial. Diamond volta sete milhões de anos no tempo para oferecer uma visão de que toda a humanidade evoluiu biologicamente a partir de um mesmo princípio: a adaptabilidade.

A adaptabilidade aparece através do processo que cada povo viveu dentro de um determinado tipo de condições ambientais, ou dependo exclusivamente da natureza, ou dependendo do desenvolvimento permanente de novos conhecimentos técnicos e tecnológicos para produzir e estocar alimentos e manufaturas. Estes dois diferentes processos gerariam demandas diferentes de organização social, uma integrada e outra mais expansiva. Foi assim que em alguns locais específicos do mundo, surgiriam centros independentes de produção de alimentos, que se desenvolveram ao longo dos últimos sete mil anos. E assim, as primeiras ferramentas, armas, máquinas, divisão de trabalhos, trocas, hierarquias, línguas, arquiteturas, e por aí em diante.

Estes centros independentes de produção de alimentos viriam também acompanhados um determinado comportamento com relação à ecologia, decorrente de uma produção extensiva. A ausência de consciência ambiental, um conceito muito recente, causaria um esgotamento do território em zonas com natureza frágeis, estimulando uma necessidade de expansão. A questão da produção de alimentos parece ser a principal explicação para os fluxos migratórios, guerras e até mesmo para o desenvolvimento e decadência dos povos ao longo da história. Por isso, o tema é amplamente exposto, no livro, a partir de cinco fatores interligados:

* O primeiro fator é a descoberta de que a África e a Austrália apresentaram uma variedade menor de plantas cultiváveis e de animais domesticáveis comparada com a região da Europa e Ásia.
* O segundo fator é que isso gerou uma vantagem que daria a esta última região, mais elementos para incentivar as migrações e a difusão de conhecimentos.
* O terceiro fator acontece por este tipo de vantagem ter impulsionado as expansões migratórias cada vez mais longe, disseminando também conhecimentos que cedo se transformaram em formas de dominação e motivos para confrontos.
* O que se apresenta no quarto fator, é que a questão do tamanho de uma região e de sua população eram elementos relevantes para o nascimento de grandes civilizações, unidas ou competitivas, que reuniam as vencedoras e com as vencidas.
* O quinto fator é que as grandes populações que tiveram maior capacidade de difusão de conhecimentos, por gerarem mais inventores.

Armas, Germes e Aço: os destinos das sociedades humanas ganhou o prêmio Pulitzer em 1998, foi traduzido em 25 línguas e ganhou também um Prêmio da National Geographic Society, que realizou um filme a partir dele [1] que foi transmitido numa televisão de Londres no programa PBS. Em nosso país o livro é recomendado [2] como referência para alunos e educadores do ensino escolar graças por sua exposição acessível do “complexo jogo da evolução das sociedades”.

Este livro também apresenta um panorama interessante de idiossincrasias de pessoas que delinearam a história, como Confúcio, Cristo, Lênin, Martin Luther King, Maomé, Hitler, Alexandre o grande, o imperador Pachacuti, Guilherme o conquistador e o rei zulu Shaka. Mas de alguma forma não aproveita a ocasião para sugerir o investimento na atividade científica de pesquisa biográfica. O que me parece seria o mais coerente para estimular futuras pesquisas sobre algumas vidas que mudaram o curso da história, como promete em seu livro. Afinal, no mundo moderno, grande parte do repertório cultural que forma a mentalidade da sociedade globalizada vem da indústria audiovisual, o maior veículo de assimilação de valores ideológicos e estéticos profundamente instaurados em grupos e comunidades.

Mesmo se fica a impressão, ao final da leitura do livro, que cumpre seu papel de ultrapassar teses de cunho evolucionista e desmistifica a elaboração de teses anti-racistas em diversas áreas. O livro não anuncia o que vem após este ciclo vicioso que envolve o desenvolvimento. O que vem depois do desenvolvimento, para mim, são pessoas especiais. Pessoas que mudam a vida de muitas pessoas e assim de todo o destino da humanidade. Que relação elas têm com a evolução humana?

[1] Guns Germs and Steel. Disponível em: <http://www.pbs.org/gunsgermssteel/>, acesso em 28/03/2008.

[2] Portal Aprende Brasil. Livros recomendados. Disponível em:

http://www.aprendebrasil.com.br/recomenda/novorecomenda/livros.asp?IDLivro=23854>, acesso em 28/03/2008.

[3] UCLA – Department of Geography. Disponível em:

<http://www.geog.ucla.edu/people/faculty.php?lid=3078&display_one=1&modify=1>, acesso em 28/03/2008.





O Novo Capital é o Trabalho

4 04 2007

PARADIGMAS ORGANIZACIONAIS DA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO

Camila Santo

Rio de Janeiro, fim de 2006

Tecnologia da Informação, Ambiente e Relacionamento

Este artigo ressalta ligações entre o novo ambiente organizacional gerado pela Globalização e os novos relacionamentos sociais impostos pela Tecnologia da Informação. Seu objetivo é mostrar aos administradores brasileiros, dos três setores, o aparecimento de uma nova perspectiva de valor e produção de riquezas dentro da sociedade.

As teorias econômicas não parecem mais dar conta de explicar o caminho para o desenvolvimento sustentável. Os impactos da Globalização sobre o mercado de trabalho revelam uma mudança situada num novo sistema de trocas, baseado em informação. A Internet abriu uma nova dimensão para a produtividade, revelando uma tendência à consonância entre bens e serviços com as necessidades e interesses de um ambiente global cada vez mais inter-organizacional.

A questão mais importante para o futuro é promover a conscientização dos líderes das organizações sobre a importância de valorizar o ambiente social disponível, esperando que isso seja suficiente para gerar benefícios de ordem sustentável.

Paradigmas Organizacionais do Século Passado

A Globalização surgiu como uma nova realidade, causando impacto nas dimensões financeira, produtiva e comercial das relações econômicas entre os países. Disseminou-se inicialmente através de novas formas de concorrência que instigaram a competitividade mundial através de um novo diferencial, tecnológico, que atendia à demanda específica dos consumidores por mais agilidade e flexibilidade da produção.

No Brasil, o processo de Globalização introduziu-se através de um aumento nos empréstimos internacionais que visava supostamente, em primeiro lugar, permitir-nos acompanhar as tendências do sistema financeiro internacional (financiamentos e câmbio entre outros). Dessa forma, a produção nacional internacionalizou-se a princípio através de investimentos externos diretos que se concretizaram logo depois em relações contratuais, de aparente cunho estratégico, com outros países.

Após o fim do Regime Militar, com a diminuição do papel do estado na economia, as organizações empresariais conscientizaram-se de sua própria importância na economia política internacional. As novas exigências conjunturais da sociedade desencadearam profundos processos de mudança no governo de modo geral quanto à forma de gerir seus recursos. Essa necessidade de racionalizar recursos, aliada ao aumento da complexidade estrutural inerente às organizações empresariais e instituições públicas promoveu a necessidade de se tomar decisões governamentais cada vez mais complexas e difíceis. O Estado brasileiro passou então a enxergar as instituições da sociedade civil como parceiras no atendimento de carências que não podia suprir sozinho desde o início da década de 1990.

Embora, a Globalização tenha prometido uma adequação à economia global, introduzindo novas cláusulas sociais e normas trabalhistas que gerariam soluções econômicas no Brasil e conseqüentes benefícios para nossa sociedade. O principal impacto social observado no mercado de trabalho brasileiro nos últimos anos foi a redução das unidades de produção, gerando diminuição brutal dos empregos formais. Ainda vivemos em um país que precisa concentrar seu investimento em educação, saneamento básico, transporte, saúde e segurança. Dessa forma, os olhos das organizações empresariais brasileiras também começaram a se abrir, em um dado momento, para a importância da redução da vulnerabilidade social que assola o país. Afinal, todos estão perdendo com isso. A emergência de uma esfera pública não-estatal de exercício da cidadania veio então qualificar o Terceiro Setor para novos papéis na economia nacional.

O Terceiro Setor representa, portanto, uma nova tendência, apenas perceptível hoje em dia, de que o desenvolvimento da sociedade pode ser viável sem se basear apenas no consumo. Aparece para sugerir que o crescimento econômico aponta atualmente muito mais para uma nova espécie de capital, o social.

Um aspecto positivo da Globalização é a revelação de que estruturas sociais passaram a ser vistas como recursos, ativos de capital dos quais se podem dispor. Apesar de a ampliação do mercado sempre ter sido essencial para o crescimento econômico, na medida em que o conhecimento e a colaboração vêm se tornando um impulso para a criação de valor, começam a aparecer novos parâmetros para os quais ainda estamos despreparados.

O capital social é, portanto, um conceito que vem acrescentar então possibilidades ampliadas ao tratamento de questões relacionadas com o processo de desenvolvimento, tanto na sua vertente econômica como na social. Franco (2006) relaciona desenvolvimento e capital social lembrando que “a configuração peculiar, única, que representa um coletivo humano estável que convive em um mesmo território representa um potencial tremendo. Em geral não vemos os recursos que temos porque pensamos que recurso é somente dinheiro”.

Capital e Trabalho

O primeiro salto na relação entre trabalho e capital, foi a aprovação da lei do Balanço Social, no fim da década de 70, na França, impondo o cumprimento dos direitos humanos no ambiente de trabalho. No Brasil, no fim da década de 90, a divulgação voluntária do Balanço Social, pelo IBASE, representou um marco na participação do mundo empresarial no desenvolvimento da sociedade brasileira. Do ponto de vista macro-econômico, esta tendência social pode ser explicada pela evolução do próprio processo de Globalização.

No século passado, o fordismo pressupunha que os ganhos de produtividade tinham como contrapartida, de um lado, o crescimento dos investimentos financiados pelos lucros das empresas e, de outro, a ampliação do poder de compra dos trabalhadores assalariados. Uma promessa de riqueza.

Neste mesmo período, a União Soviética adotava um outro modelo que estava baseado em uma acumulação extensiva das forças produtivas, sem crescimento significativo do consumo de massa, mas com um avanço em organização e hierarquia, que seriam difundidas a toda a sociedade. Uma promessa de justiça.

O problema é que fordista ou não, os antigos modelos econômicos eram baseados na produtividade e no consumo, ou seja, no combate à concorrência, e por isso não podiam mais dar conta de uma sociedade interativa e flexível, como se tornou a globalizada. Ou seja, apesar desses sistemas terem tido efeitos sociais em todos os países, afetando nossas relações profissionais, inclusive no plano global. Doravante, caberá à sociedade fazer as escolhas sobre o que é ou não desenvolvimento. Por isso, o mundo contemporâneo parece mais ter desistido do sonho de um sistema econômico, para vagar entre tipos de relação, capital – trabalho, cada vez mais voltadas para o desenvolvimento sustentável. Toda a sociedade buscando uma visão comum onde há conscientização das identidades e dos valores compartilhados.

Acompanhar esta tendência significa, na prática, enxergar as oportunidades em se unir para poder concentrar competências, ou facilitar a distribuição de produtos/serviços, ou ampliar penetrações em outros mercados, inclusive estrangeiros. O mundo contemporâneo também obriga a todos a aprender a se relacionar não somente com fornecedores, distribuidores e usuários, mas com o objetivo de se posicionar em todo um ambiente social. O conceito de Cooperação Competitiva (Gorz, 1997) fala de trocas solidárias geradas por uma nova sociabilidade que enxerga formas de valor que são imateriais, como a imaginação e as aspirações.

A transição de paradigmas organizacionais que causa tantos impactos em nosso país significa, principalmente, uma nova relação que permite agora que o capital se adapte enfim à insegurança do mercado global, gerada pelos antigos modelos econômicos, através do princípio de flexibilidade do trabalho.

Ambiente Ferramental da Sociedade do Conhecimento

No Brasil, entre 1995 e 2002, organizações com até cem empregados criaram 96% dos novos postos de trabalho (fonte: BNDES). Os negócios se tornaram mais enxutos no nosso país. E a boa nova é que isso facilita a criação, o desenvolvimento, e o crescimento dos ambientes de relacionamento. Novo milênio, nova visão!

Através das últimas décadas, observamos uma descentralização da gestão corporativa dentro das organizações. Hoje em dia, a aplicação de estratégias de comunicação interna permite que elas estruturem-se de forma horizontal, o que modifica significativamente as relações de trabalho, principalmente por promover o envolvimento direto de cada colaborador nos fluxos de produção. O tipo de Integração que ressalto, também é externa, exigindo altos níveis de abertura e visibilidade por toda a cadeia produtiva, uma habilidade para formar equipes inclusive com membros de diferentes organizações, e também disciplina para desenvolver relacionamentos onde todos saiam ganhando.

A Internet integra cada dia mais nossas vidas principalmente para apresentar-nos oportunidades de conectividade e de interoperabilidade de conteúdos. O que permite, acima de tudo, uma comunicação mais eficiente da informação, maximizando os fluxos e padrões relacionais entre pessoas e pessoas, pessoas e máquinas e de máquinas com máquinas, de origens, funções e capacidades diferentes. É um ambiente para as trocas cuja infra-estrutura permite o desenvolvimento de modelos de negócios inovadores, com baixo custo material, mas exige, em contrapartida, uma compreensão profunda dos relacionamentos guiados pelas partes envolvidas.

As organizações empresariais que orquestram uma rede de colaboração saudável são as atuais campeãs na economia de rede. Este novo paradigma organizacional pode ser exemplificado através de portais virtuais como o Google que começou como ponto de entrada para aplicações na Internet e evoluiu para se tornar destino final dos usuários, pois oferece a agregação e propriedade de conteúdo, inclusive de terceiros, funcionalidade e e-commerce.

Diferentemente dos relacionamentos tradicionais, as novas formas de networking não precisam ser restritas por barreiras. Além disso, os fluxos de informação que transitam entre os participantes vão muito além da necessidade de atender às demandas da linha de produção. Na verdade, em muitos casos, colaborações espontâneas, como o marketing boca-a-boca ou o compartilhamento de metodologias, são as únicas reais formas de trocas de valor em um negócio. Pois é através delas que novos conhecimentos e conseqüentes estratégias são realmente desenvolvidos em conjunto, facilitando o sucesso sustentável de toda a sociedade.

Pense em equipes inter-organizacionais trabalhando coletivamente à distância, trocando informações eletronicamente e em seguida, interagindo para desenvolver planos e projetos. Através do networking, estão surgindo as primeiras soluções reais para o mercado de trabalho. Soluções promovidas espontaneamente pela sociedade.

Conclusão

O trabalho hoje precisa se humanizar e se democratizar dentro das organizações. Ele deve ser visto como uma atividade coletiva de indivíduos inseridos em uma sociedade que escolhe o seu próprio desenvolvimento. Ter enfoque em pessoas significa incentivar a autonomia, a confiança e a abertura, para permitir a assimilação de competências em relações inter-pessoais. Pois, hoje, ao mesmo tempo pessoas e organizações têm que se desenvolver tirando partido da nova força produtiva que é a informação.

É preciso selar a consciência de uma nova divisão do trabalho que impõe a valorização do ser humano como centro do desenvolvimento sustentável. O trabalho tornou-se um meio de produção sustentável. O novo capital é o trabalho. Daí em diante, o ponto de partida para uma continuação dessa reflexão, seria o da qualidade de vida. A transitoriedade é que é na verdade o grande enigma do mundo contemporâneo. O novo capital é o trabalho…e o tempo é um novo tipo de insumo. Por isso, a principal estratégia dentro da nova organização mundial agora deve ser a oferta de práticas de trabalho compartilhado, baseadas em metas e cronogramas que enxergam o tempo em consonância com as necessidades de todos.