Mais um livro sobre Clarice Lispector
3 12 2009Comentários : Deixar um comentário »
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Tabocca está produzindo o evento Brazil Week no Reino Unido
25 10 2009O evento, que acontece em Oxford e Londres, contará com exibições dos filmes da empresa, palestras sobre Clarice Lispector e a língua portuguesa e show de Adriana Calcanhotto, Moreno Veloso e Domenico Lancelotti.
Saiba mais no press release que a Jungle Drums, nossa parceira local na produção do projeto, preparou: PR_BRAZIL WEEK
O projeto Três in London – Brazil Week é patrocinado pela Vale e TAM, e apoiado pelo MinC e Itamaraty e pela Oxford University.
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Sexta dia 14 de agosto no Plano B farei sons vocais em um duo com o Montano
13 07 2009
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Presente lindo do poeta Lucky Leminsky
8 07 2009Camila
Santo
é o canto
do mar profundo
olhos nos olhos
num acalanto
com este
e outros
mundos
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Show Árvore da Voz hoje
23 05 2009A Árvore da Voz são diálogos vogais que simbolizam as três fases da vida: a infância, a juventude e a maturidade. A Árvore da Voz é um caminho que LaSa desenvolverá com a ajuda de uma shrutibox indiana, xequerê peruano e kalimba africana, a partir de seu timbre mestiço e de sua pesquisa artística voltada para as raízes tribais e ambiências vocais. LaSa é um zOOm em MilaSan, performer multimídia, de origem multi-racial (européia, africana e indígena), que pesquisa as novas sonoridades da voz há 10 anos e cantos sagrados há 3 anos.

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Compartilhando reflexões que fiz na Escola de Redes para o Raolino Oliveira
17 12 2008(Este texto é um resumo adaptado de um comentário que fiz a um post do Raolino, onde ele perguntava se a Dialética tinha ficado Espremida quando refletia sobre Redes Sociais Distribuídas, se enxergando como um velhinho frente a possibilidade de uma realidade sem centro ou ideologias, e ainda assim com alguma organização. Interessante apenas para fanáticos no tema, já vou avisando. E obs: “velhinho na rede” é o nome do blog dele. “Velhinho” é o Hegel eu respondi, “mas se isso importasse não teríamos Sócrates, Platão e Aristóteles”)
Me parece que as coisas complexas sempre acabam sendo compreendidas quando explicadas da forma mais simples.
Me lembro de ter feito um comentário sobre as Redes de Relacionamento (facebook, orkut, etc) tecnicamente serem “redes sociais”, baseada nos princípios da SNA. Existe um ponto ideológico que talvez tenha mudado na geração dos novinhos. É a curiosidade de saber as coisas mais pela experiência (Varela). Pois ela cria a diferença entre saber que não se deve poluir o planeta e encontrar uma forma de seduzir os outros para não fazê-lo.
Importa mesmo chegar ao lugar do que é “rede”? Tem mesmo de haver UMA definição? Quero entender o motivo? Se a “rede” são as pessoas, as pessoas não trariam mais respostas para o conceito, do que o que foi pensado fora de um ambiente-rede-aqui-agora?
Algumas respostas (ex: “organização em rede distribuída é possível?”) talvez não venham da compreensão do estado-da-”rede”, ou da estrada-”pensar-rede”, mas sim da observação das redes reais de pessoas aqui presentes, carregadas, em geral, de dicotomias, que podem ser até mais enriquecedoras para o conhecimento, do que as ideologias que as movem, ou que as teorias que as apoiam. Pessoas de cidades, países, idades, línguas, ideologias diferentes hoje conseguem conversar. E quanta riqueza já não cabe em um só cérebro?
Falar em dialética é um ponto que gostei, pois afinal, o que estamos observando já sabemos (todos fazemos concretamente parte da mesma “rede” dentro da qual já estamos interagindo). Como o Augusto de Franco já disse bem, “rede” já existia antes do conceito. Creio somente que não precisamos da resposta para “o que é rede?”, mesmo se a pergunta é boa (gera muitos comentários), pois só saberemos alguma coisa realmente, se o conhecimento obtido nestas trocas de informação gerar algum tipo de relação. Assim, me parece que se a pergunta gerar relação, a resposta não precisa acontecer. As próprias relações gerarão as situações para elucidar o conhecimento.
Voltando as referências da minha geração, por exemplo: grande parte da língua maia ficou perdida muito tempo, deixando uma antiga ciência desconhecida, até que alguém se deu ao trabalho de observar a relação entre os hieroglífos, há menos de vinte anos. Pela recorrência, os sentidos foram se definindo. Hoje, as linguagens mais banais de inteligência artificial utilizam a mesma técnica. E muito mais está ainda para vir, os maia identificavam três dimensões para o tempo. Da mesma forma, se ficassemos observando todos os tipos de código genético (ou focando em um só tipo que fosse, por ideologia), nunca teríamos descoberto como a coisa funciona.
Além das relações, se quisermos entrar no campo da ciência, da organização, da democracia e da filosofia, tudo-ao-mesmo-tempo-agora, talvez seja possível se não olharmos para os lados das questões (pois se não existem paredes nessa tal “rede”), ou se não nos concentrarmos nas definições (pois se chegamos aqui movidos por perguntas), ou se não nos apoiarmos em nomes (pois se não existe hierarquia de poder a seguir).
Eu enxergo o grau de distribuição de uma rede sendo proporcional ao engajamento de seus componentes e à exata medida de sua ação ali. Talvez algumas respostas estejam situadas num passado remoto, onde ainda não havia ideologia, mesmo se a política ainda é o pilar da organização da sociedade atual. Talvez as redes sociais não sejam estudadas pela biologia à toa. Quando não existe, de fato, a questão poder, os assuntos ficam menores, do tamanho de situações específicas que aí conseguimos elucidar através da pura interação entre indivíduos.
Acho que a dialética não diminuiu sua utilidade, apenas o seu espectro de reflexão ficou mais complexo, e ela nunca foi coisa simples de entender.
Provérbios duram mais que teorias científicas.
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Diálogo, tecnologia, cooperação, interação social
14 07 2008(Trecho retirado do artigo de Camila Santo –
O Trabalho Cooperativo na Sociedade Global – COPPE, junho de 2008)
Se hoje, as trocas econômicas são menos competitivas (baseadas na lógica da comparação), e as trocas profissionais, tendem, por conta da tecnologia, a se tornarem complementárias (mais integradas). Uma nova intenção de submeter a produção e as práticas econômicas do mercado de trabalho à vida humana e ao equilíbrio ecológico. O diálogo desponta neste contexto como uma prática cada vez mais importante no ambiente organizacional, pois ele alinha visões e ajuda a realizar o potencial de indivíduos em equipe. Este artigo perpassa diferentes autores que enxergaram a relação entre as novas tecnologias, a comunicação, a cooperação e a sociedade global, num sentido muito próximo: uma nova dimensão relacional para o mercado de trabalho.
Temos de usar o diálogo para concentrar-nos nos problemas coletivos de viver em conjunto em comunidades.
Daniel Yankelovich (1999)
Diálogo são palavras, pensamentos em conjunto, uma síntese e entrelaçamento de idéias, um fluxo de significação, ou uma permuta entre pares pensativos. O Diálogo é dirigido em função da curiosidade genuína e do respeito. O Diálogo demanda suspensão de juízo, interrogação sincera, coragem, parceria e colaboração. A deliberação do diálogo descreve um período de pensamento e reflexão que pode realizar-se em qualquer momento da conversação. E por isso, diálogo é quase um sinônimo e concordância.
O fluxo do diálogo acontece através da fórmula Escutar>Avaliar>Respeitar>Falar quando entendemos a relevância e os dilemas que envolvem a questão; quando analisamos os motivos e intenções e encontramos convergências pessoais; quando aceitamos o repertório do interlocutor e afastamos sua violência, evitando ataques, retificações e condescendência, mas apresentando, em contrapartida, respostas genuínas. Pois o diálogo inclui múltiplas perspectivas, às vezes até contrárias de promover um único ponto de vista.
Acompanhamos um momento onde um novo tipo de interações está surgindo na sociedade global. Se a Internet fomentou desde seus primórdios o compartilhamento de informações, através da multiplicação de páginas pessoais, portais, lojas virtuais, ferramentas de busca e servidores FTP. A chamada Web 2.0, está apresentando novas formas de compartilhamento, muito mais interativas e colaborativas como os blogs (onde as informações podem ser comentadas e indexadas em outros sites), wikis (onde o próprio site pode ser editado de forma aberta), lojas pessoais (sistemas de pagamento paypal, comissões sobre anúncios em adsenses), fóruns virtuais, e transferências peer-to-peer.
A Evolução da Internet Colaborativa pode ser representada pela atividade de Peering, que significa a interconexão voluntária de redes de internet separadas realizada com o propósito de viabilizar o trânsito de informações diretamente entre seus respectivos usuários, que tem por objeto de produção, a informação e a cultura. Nela as tarefas podem ser fragmentadas em pedaços pequenos, que podem ser entregues independentemente, diminuindo o ruído na comunicação com os clientes, criando novas oportunidades de negócios, possibilitando o relacionamento com talentos externos rapidamente, e até mesmo alterando a maneira de relacionamento com os concorrentes. Dessa forma, a Internet colaborativa se anuncia como uma ferramenta ideal para o desenvolvimento de Capital Social e para a redução de custos de pesquisa e desenvolvimento.
A filosofia social de Tuomela (2000) desmistifica o caráter ideológico da cooperação, mostrando que apesar de as intenções de cooperação serem quase sempre individuais, elas se distinguem em duas dimensões, uma privada e outra compartilhada. As chamadas causas privadas são aquelas que não se questionam quanto às ações do grupo, mas sim às próprias razões pessoais. Elas estão presentes no que o autor define como modo “eu” de cooperação, inspirando-se nos filósofos John Searle e Margaret Gilbert. As chamadas causas compartilhadas são aquelas que se questionam quanto à sua própria posição dentro das ações do grupo. Elas estão presentes no que ele define como modo “nós” de cooperação, inspirado nos trabalhos de Michael Bratman e Seumas Millers.
Os modos de cooperação representam por sua vez, dois tipos de cooperação, um baseado em objetivos privados, denominado tipo I (do indivíduo), e o outro baseado em objetivos compartilhados, denominado tipo G (grupo).
No tipo individualista de cooperação, os participantes dão valor as suas próprias preferências individuais e necessidades de confidencialidade (o que pode efetivamente levar a cooperar ou não). Por isso os participantes acabam deslocando seus objetivos e ações relevantes dos meios para outros objetivos e ações relevantes. A cooperação tipo I é tal que não há meta coletiva, mas os agentes envolvidos têm o seu objetivo privado, envolvendo preferências que sejam compatíveis, no sentido de que satisfazem o objetivo de um agente e não pode tornar impossível satisfazer o objetivo dos outros. Neste caso os agentes mutuamente acreditam que os outros estão agindo similarmente. Tudo isto permite a coordenação da ação. Neste tipo de cooperação, a partilha da meta coletiva não é o fator relevante.
A “reciprocidade na cooperação” é então usada na cooperação tipo I onde a adaptação das ações é justificada em termos do deslocamento de preferências de uns para as preferências dos outros. No modo “eu” de cooperação, a tomada de decisão dos agentes envolve crenças e desejos (ou metas) que têm como objetivo selecionar a melhor seqüência de ação (aqueles com a maior utilidade esperada). Embora esta modalidade de tomada de decisão seja de auto-interesse, no sentido de que os agentes baseiam a sua ação nas suas metas privadas, não é estritamente egoísta. Por isso, pode ser facilmente associado com a Teoria dos Jogos (Nash), ou com o conceito de Cooperação Competitiva (Gorz).
A cooperação adequada é necessariamente intencional, é isso o que importa no trabalho de Tuomela (2000). Os tipos I e G de cooperação diferenciam-se essencialmente pelas motivações da ação. Com efeito, me parece que um “aperfeiçoamento” da cooperação tipo I seria a cooperação tipo G, onde os atores envolvidos, para conseguirem efetivamente progredir e sobreviver, precisam se comunicar, buscar e partilhar de um objetivo comum que satisfaça o todo e não uma parte.
A Tese da Recompensa, elaborada por Tuomela (2000), vulgariza também o poder mágico da cooperação, de forma mais efetiva que em Yankelovich (1999): Ela inicia-se com um acordo sobre uma divisão de tarefas. Em seguida, as expectativas serão determinantes para a decisão de quais tarefas escolher e quais delegar. Independente disso, mesmo que se coopere sem total intenção ou sem conhecimento amplo da situação, cooperar será sempre melhor que não cooperar, já que no fim, são menos tarefas a fazer (esta é a recompensa). Por outro lado, existem diferentes tipos de recompensa, uma vez que as tarefas economizadas não são as mesmas. As expectativas serão supridas de forma equilibrada, ou na forma de Pareto.
A evolução da cooperação seria o próximo ponto para a continuação desta reflexão. O que acontecerá quando os indivíduos começarem a se co-adaptar intencionalmente com outros, em massa, através de fatores tanto culturais quanto biológicos, em seguida formando um grupo com eles, por intermédio da tecnologia. O livro O princípio da cooperação – Em busca de uma nova racionalidade, de Abdalla (2002), questiona a atual sociedade global, e sua economia que ainda não funciona como uma atividade coletiva. A competição ainda é o eixo da racionalidade hegemônica e este modo de relacionar gera apenas a exclusão social e o desemprego massivo que observamos na maioria dos países. Numa nova economia, mais cooperativa, o trabalho aconteceria de forma a que o número de pessoas seria exatamente equivalente ao número de trabalhadores. Um mercado de trabalho, onde não haveriam excluídos e nem seria o trabalho diminuído com o crescimento das inovações tecnológicas.
Na economia baseada em cooperação, os trabalhadores seriam completamente aproveitados e a jornada de trabalho seria menor na medida em que cresceriam as inovações tecnológicas. Uma nova racionalidade aponta a presença da sociedade como um conjunto de relações humanas que funcionam melhor quando baseadas no princípio da cooperação. O “outro” ser humano pode ser visto como outra coisa além de concorrente, já que é parte da coletividade. Não há mais nenhuma guerra a ser vencida. Apenas o desafio primordial do encontro, do acordo. Uma nova ética nasce quando “indivíduo” e “coletividade” não se opõem, mas, cooperam e trocam. E talvez quem sabe, nessa nova economia, nem mesmo o dinheiro seja o mediador das práticas produtivas, mas sim, enfim, o próprio trabalho, e seus dispositivos coletivos cognitivos.
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A Comunicação como construto da Sociedade Global
14 06 2008
Trecho extraído do artigo: Cibercultura e Presença – Um paralelo entre as Relações Humanas e a Sociedade Global, de Camila Santo, COPPE junho de 2008)
Nas sociedades orais, as mensagens lingüísticas eram partilhadas por emissores e receptores, dentro de um universo próximo de significado. Os atores da comunicação utilizavam o mesmo campo semântico, compartilhavam o mesmo contexto, e dividiam o mesmo tipo de fluxo de interação. A invenção da escrita abriu um espaço de comunicação desconhecido pelas sociedades orais, no qual se tornava possível tomar conhecimento de mensagens geradas por pessoas situadas à distância ou preservá-las por séculos, mesmo se os atores da comunicação não estavam em interação direta. Estas características tornaram a escrita o núcleo da racionalidade humana e acabaram oferecendo ao pensamento à possibilidade de se tornar universal.
Com a evolução da escrita nas civilizações, apareceu a necessidade de elaborar sua recepção, para que fosse possível haver mais receptores. Surgiram então as artes da interpretação, da tradução, e toda uma tecnologia lingüística (gramáticas, dicionários, etc), que correspondiam à idéia de Universalidade, enunciada nos Elementos de Euclides. Estes Elementos representavam um tipo de mensagem que não teria pertinência alguma na anterior sociedade oral. Assim, mesmo se permanece após sua invenção, a figura do intérprete (com papel central nas tradições orais), nasce uma nova figura, na comunicação: a do autor (típico da nova cultura escrita), que viabilizou ao ser humano, um auto-posicionamento no seu próprio discurso.
A revolução industrial mudou a configuração da experiência do cotidiano através do crescimento do tráfego urbano, da distribuição em massa dos produtos de consumo e dos novos meios de transporte e comunicação. Até a chegada da televisão, o cinema foi o mais singular e expansivo horizonte discursivo no qual os efeitos da modernidade foram refletidos, rejeitados ou negados, transmutados ou negociados, se transformando então em discurso social.
O livro, O Cinema e a Vida Moderna (2001), situa a visão como o instante da presença na sociedade pré-global, transformando este sentido no centro da atenção do corpo, e por conseqüência no centro da análise mental, incluída nos discursos. Com a chegada do som no cinema, os impactos visuais e auditivos consumidos em massa, promoveram um bombardeio permanente de experiências subjetivas que provocou choques perceptivos e físicos cada vez mais abrangentes, acionando constantemente os atos reflexos e impulsos nervosos em todos os tipos de indivíduos causando-lhes tensões viscerais e agregando um tom de ansiedade generalizado ao ambiente urbano da sociedade. Dessa forma, desde a invenção da linguagem cinematográfica, o corpo humano foi obrigado a socializar-se e nesse processo estabeleceu-se um domínio somático do ego sobre a formação de conhecimento. Este domínio foi acompanhado por uma regulação da atenção e padronização da percepção, aspectos que constituíram um dos espaços cognitivos da modernidade.
Com a representação do homem pelo aparelho, a auto-alienação humana encontrou uma aplicação altamente criadora.
Walter Benjamin (1993)
Para Benjamin (1993), o cotidiano designa a forma pela qual a experiência diária de produção e reprodução de atividades é moldada pela conjunção entre a lógica capitalista da mais-valia, a industrialização, a urbanização e a crescente automação, e abstração da formação social dominada pela burguesia. O cinema significa uma “mudança repentina constante”, um choque na vida moderna, que provoca sensações efêmeras acentuadas que atingem o sujeito com grande intensidade. Uma fenomenologia específica se concretiza assim na invenção de novos gêneros e estratégias de representação, resgatando a possibilidade de experiência sensorial em face do caráter efêmero da modernidade.
Benjamin (1993) vê uma guinada épica na direção da produção para as massas codificada além do cinema, na arquitetura, nas tendências da moda, nos eventos e instituições da alta cultura capitalista, que provocaram impacto profundo sobre toda e qualquer prática cultural. O conceito de cultura de massa e sua relação com o cinema, leva em conta a mistura, real e sem precedentes, de classes sociais, gêneros e gerações. Este conceito deriva de qualidades estruturais de da reprodução técnica: uniformidade, replicabilidade e proximidade.
Com o advento da televisão se apresenta um novo paradigma de comunicação em massa de nível internacional, que para McLuhan (1996) se integra com tecnologias planetárias (satélites), embora de forma limitante (ainda unidirecional). Em Meios de Comunicação como Extensões do Homem, o autor introduz a questão do impacto sensorial na comunicação humana, na fórmula: o meio é a mensagem. A sociedade começa a se configurar a partir deste advento como uma “Aldeia Global”, uma metáfora que o autor cria para definir a sociedade. Nesta aldeia, a forma de um meio social tem a ver as novas maneiras de percepção instauradas pelas tecnologias da informação. Os próprios meios são a causa e o motivo das estruturas sociais.
Lemos (2004), reconhece singularidades na obra de McLuhan (1996) com a atualidade, pelo fato de ter sido pioneira na descrição da sociedade mediática, mas, acrescenta que os meios de comunicação de massa (incluindo a imprensa e o rádio) apenas seguem uma linha cultural totalizante que já havia sido iniciada pela escrita. No caso das mídias de massa, a mensagem mediática será também, lida, ouvida, e vista pelas pessoas do mundo afora; só que dessa vez, de maneira a encontrar, ou até impor, uma capacidade interpretativa comum aos seus receptores.
Portanto, a verdadeira ruptura com a pragmática da comunicação estabelecida pela escrita não pode vir à luz com o rádio ou a televisão, pois esses instrumentos de difusão em massa não permitem nenhuma verdadeira reciprocidade, tampouco interações transversais entre os participantes. Em vez de emergir das interações vivas de uma ou mais comunidades, o contexto global instaurado pela mídia fica fora do alcance dos que consomem, sujeitos apenas a uma recepção passiva, isolada. Os correios, o telefone, a imprensa, as editoras, as rádios, as incontáveis redes de televisão formam apenas um espaço de interconexão aberto, que hoje são muito mais animados graças às comunicações transversais e os processos de inteligência coletiva encontrados na Internet.
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Salada Mista
2 04 2007Elogio á Mestiçagem, Democracia Racial e outros picantes ingredientes
“ O Neguinho gostou da filha da ‘madame’
Que nós tratamos de Sinhá.
Senhorita também gostou do Neguinho
Mas o Neguinho não tem dinheiro pra gastar
A ‘madame’ tem preconceito de cor
Não pode aceitar este amor.
Senhorita foi morar lá na ‘Colina’
Com o Neguinho
Que hoje é compositor.”
(Samba de Noel Rosa de Oliveira, e Abelardo da Silva, anos 60)
Existem várias analogias culinárias que podem ser feitas quando se fala das diferenças sócio culturais existentes na composição da população de um país e suas diversas possibilidades de mistura, amálgama, (no Brasil uma questão tornada particularmente complexa por conta de nossa peculiar estratificação sócio racial). Já foram tentadas várias receitas para tão ansiada refeição mas, até agora, nenhuma realmente apeteceu à clientela.
A primeira – e mais óbvia- analogia que me ocorre é a do Omelete, aquela que diz que para fazer um é preciso ‘quebrar os ovos’ . É a mais radical e cruel porque cria um problema terrível para a galinha, mãe eventual dos pobres pintinhos que nasceriam. A outra, mais ‘light’ é a da Vitamina, na qual um liquidificador mistura tudo numa pasta uniforme, fazendo os ingredientes originais, geralmente frutas ou legumes da estação, perderem inteiramente a, digamos assim, identidade. Para mim, a mais pertinente é mesmo esta que uso agora, principalmente por causa da certa dose de ironia que ela contém: A Salada Mista. Nela os ingredientes se misturam, partilham algum tempero comum, mas mantêm-se íntegros, apesar de estarem picados em muitos pedacinhos. Acho a Salada Mista uma boa analogia para Diversidade Cultural.
Esta questão, a nosso ver, mãe de quase todas as contradições e conflitos brasileiros, está na discussão sobre as influências exercidas pelas culturas ditas ‘hegemônicas’ sobre culturas ditas mais frágeis (ingrediente principal da xenofobia). Neste ‘conversê’ sem fim sobre preservar ou não preservar a nossa ‘cultura popular’, ainda chamada por alguns de ‘Folclore (esta palavrinha tão vã que mais esconde do que explica o que quer mesmo dizer ‘Cultura do povo’). Está na violência urbana, na contagem de corpos e nas balas perdidas que animam nossos debates cotidianos (afinal, quem morre mais, o favelado trabalhador quiçá traficante ou a classe média trabalhadora quiçá consumidora de drogas?). Está até nas conversas sobre o futuro de nossas crianças (afinal, um negão de 13 anos, com um metro e oitenta de altura merece ou não ser tratado como uma criança?). Está, em suma, contaminando todos os espaços do nosso cada vez mais tenso dia a dia.
O tema, passeando cada vez mais pelas entrelinhas deste nosso site, talvez seja hoje a mais importante questão brasileira: Entender, timtim-por-timtim, a maneira como, dividindo o Brasil em castas raciais se construiu (e se mantêm até hoje) uma das sociedades mais desiguais do planeta e, de como agora, extremamente divididos, porém, perdidos no mesmo ‘mato sem cachorro’, vamos nos livrar da arapuca social na qual, por pura babaquice e egoísmo nos metemos.
A conversa passeia também – e principalmente até- pelas centenas de subterfúgios e ‘panos quentes’ que boa parte de nossa elite bem pensante, a nossa indefectível Academia (ou ‘inteligentsia’, para usar, na falta de outro melhor, um termo já bem arcaico) e mesmo a nossa sociedade como um todo, se utilizam para desconversar, tergiversar e manter as coisas exatamente como estão.
Como estamos falando de gente, de cultura humana, a esta altura deve caber bem a pergunta: Qual receita seria a mais recomendada para conseguirmos (em se tratando de Brasil, é claro), uma sociedade sem conflitos sócio culturais tão violentos? (O garçom mais próximo pode fazer a pergunta:)
_ ‘Omelete, Vitamina ou a Salada Mista, freguês?’
A VITAMINA
Descrevendo as receitas
...”Ao que parece o termo (Democracia racial) foi usado pela primeira vez por Arthur Ramos (1943), em 1941, durante um seminário de discussão sobre a democracia no mundo pós-fascista (Campos 2002). Roger Bastide, num artigo publicado no Diário de S. Paulo em 31 de março de 1944, no qual se reporta a uma visita feita a Gilberto Freyre, em Apipucos, Recife, também usa a expressão, o que indica que apenas nos 1940 ela começa a ser utilizada pelos intelectuais. Teriam Ramos ou Bastide cunhado a expressão ou a ouvido de Freyre? Provavelmente, trata-se de uma tradução livre das idéias de Freyre sobre a democracia brasileira. Este, como é sabido, desde o meados dos 1930, já falava em “democracia social” com o exato sentido que Ramos e Bastide emprestavam à “democracia racial”; ainda que, nos seus escritos, Gilberto utilize a expressão sinônima “democracia étnica” apenas a partir de suas conferências na Universidade da Bahia, em 1943.
(Texto-tese de Antonio Sérgio Alfredo Guimarães -Departamento de Sociologia /Universidade de São Paulo)
Dos anos mais efervescentes do movimento abolicionista no Brasil á década de 30 do século seguinte, uma nova iguaria apeteceu a certa bem apessoada rapaziada: Elegantes em seus librés (logo depois envergando vistosos fraques em conferências internacionais), estes jovens rapazes gritariam em coro para o garçom:
_ ‘A vitamina, senhor! Vitamina para todos!’
É que preconizavam com um empenho falsamente cívico o que de melhor se poderia fazer com os escravos: desaparecer com aquela ‘mancha negra’ transformando os africanos, progressivamente (num processo de cem anos, diziam os mais cartesianos), em seres mistos, nem brancos nem pretos, mestiços (as teorias não explicam se no preparo da receita desapareceriam também os brancos).
A história da tese que ficou conhecida como ‘elogio á mestiçagem’, irmã dileta desta outra tese controversa, a ‘Democracia Racial’ é antiga. Ela esteve muito em voga até os anos 30 do século passado (na verdade ainda hoje é defendida por alguns seguidores). Seus principais formuladores, de uma ponta á outra, foram intelectuais como Silvio Romero, Graça Aranha, Joaquim Nabuco e, já no século 20 também entre outros, o sociólogo oficial do Brasil Gilberto Freyre. Como se sabe, estas paradigmáticas teorias nasceram, pelo menos como conceito, como uma proposta que resolveria o problema gerado por aquela massa enorme de seres humanos negros que o sistema de trabalho escravo arrancou da África e espalhou pelo mundo, uma massa humana liberta por injunções muito mais econômicas do que humanitárias e, portanto a boca pequena considerada ainda pouco mais que escória.
Lentz, um dos personagens centrais do livro Canaã de Graça Aranha afirma a certa altura:
_”O homem brasileiro não é um factor do progresso: é um híbrido. E a civilização não se fará jamais nas raças inferiores” (…) “Não acredito que da fusão com espécies radicalmente incapazes resulte uma raça sobre que se possa desenvolver a civilização. Será sempre uma cultura inferior, civilização de mulatos, eternos escravos em revoltas e quedas. Enquanto não se eliminar a raça que é o produto de tal fusão, a civilização será sempre um mistério, o artificio (…) Até agora, não vejo probalidade da raça negra atingir a civilização dos brancos”.
Ao Milkau, o personagem antagonista contrapunha, fazendo o seu ‘elogio da mestiçagem’:
_”O tempo da África chegará. As raças civilizam-se pela fusão; é no encontro das raças adiantadas com as raças selvagens, que está o repouso conservador, o milagre do rejuvenescimento da civilização “(…) Eu tenho para mim que o progresso se fará num evolução constante e indefinida”
O mito do homem mestiço: Eis aqui o que parece ser enfim a chave de tudo para esta corrente de pensamento. A quem interessaria tamanha utopia? A inexistência total de diferenças biotipicas ou (‘estético-raciais’) seria cientificamente possível? A simples padronização ‘racial’ das pessoas removeria, num passe de mágica, as diferenças sociais? Se não, para que serviria então?
É preciso, contudo, situar a questão em seu devido contexto histórico porque, se no campo da precária biologia do século 19, se considerava cabal a existência de superioridade racial entre seres humanos (que justificaria a assimilação – ou a diluição – de uma raça pela outra), hoje até o próprio conceito absoluto sobre a existência de raças humanas está superado. Assim, propor ou sugerir a ‘mestiçagem’ como solução para tão candente problema social, não era naquela época, uma idéia tão absurda assim. Menos mal.
É nesse contexto que devem ser considerados, por exemplo, certos aspectos bem sucedidos da sociologia de Gilberto Freyre (o que não deve redimir, de forma alguma, a perniciosidade e os equívocos clássicos de sua ideologia)
O OMELETE
(Pobres dos pintinhos)
Assim, ali por volta de 1930, 40, alguns europeus de bigodinhos, reunidos numa mesa ao fundo, ao serem inquiridos pelo garçom responderiam excitados:
_’Omeletes, senhor!’ De sobremesa, Vitaminas!’
É que para uns não havia jeito melhor de melhorar a raça humana do que separar os espécimes ’superiores’, os ‘puro sangue’, os de ‘pedigree’ e desaparecer com o resto, inclusive os ‘vira-latas’, transformando a ralé em torrada, num forno crematório qualquer.
Para outros contudo, o desaparecimento dos ‘inferiores’ deveria se dar por meio de métodos mais científicos ou ‘humanitários’: Um liquidificador genético resolveria o problema. Um projeto que, como veremos a seguir, não tinha mesmo nada de científico (e muito menos de humanitário).
(Aqui, antes de tudo, uma necessária afirmação de firme e ampla discordância diante dos partidários da Vitamina ou da Mestiçagem. É preciso – me permitam – fazer uso da ênfase nesta hora, á este ponto de uma questão que é por razões óbvias, crucial).
Frisemos que o contexto onde atuaram Gobineau, Lombroso, Chamberlain, Nina Rodrigues e, porque não dizer, Gilberto Freyre, foi o mesmo que gerou as teorias nazistas na década de 30. Não foram idéias apenas ’simplificadoras’ ou ‘evolucionistas’. Foram idéias profunda e claramente interessadas em criar um novo paradigma de civilização, um método ‘científico’ para a classificação e a sujeição de pessoas, num novo ambiente geopolítico denominado Colonialismo.
Apenas para exemplificar o alto grau de assumida perniciosidade destas idéias, basta citar o trabalho militante do próprio Gilberto Freyre, no final da década de 30 do século 20, a serviço do governo ditatorial de Antonio de Oliveira Salazar, como um dos ideólogos que contribuiu para a criação e a implantação de um sistema institucional de controle e subjugação das populações das colônias de Angola, Moçambique e Guiné Bissau e Príncipe denominado ‘Lei do Indigenato’, código similar aquele engendrado pelos africâners, na África do Sul, que dispensa comentários: o insidioso ‘Apartheid’.
O antropólogo angolano José Maianga, em texto publicado pela Revista afro-lusitana África, a este respeito nos esclarece cabalmente o seguinte:
“O indigenato, institucionalizado pelo regime salazarista (‘Estatuto dos Indígenas Portugueses das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique’) era um diploma aplicado apenas às situações jurídicas dos indígenas africanos num país que, constitucionalmente, se dizia subordinado ‘à moral ao direito e às garantias e liberdades individuais’. Este diploma traduzia, sem dúvida, a sujeição plena dos africanos ao colonizador e a uma prática assimiliacionista que se afundava no mar de contradições por onde navegava…”
…” repudiada a prática assimilacionista, Portugal engendrou, então, uma nova fórmula, o integracionismo, teoria baseada no luso-tropicalismo do sociólogo brasileiro Gilberto Freyre e que, não era mais do que a forma capciosa que o regime colonial usava para esconder o verdadeiro assimilacionismo.”
As afirmações não são de forma alguma novas. Alguns estudiosos estão no momento fazendo uma ampla revisão da obra de Freyre neste mesmo sentido. As idéias originais dele no entanto, impregnadas em quase tudo que se escreveu sobre o negro – e os pobres- do Brasil -, estão infelizmente, ainda em voga por aí e, o que é pior, defendidas por novas teorias e embasamentos que tentam afirmar Freyre como uma espécie de gênio mal lido e incompreendido.
Não é possível portanto, entender os processos de evolução da cultura brasileira, por exemplo, dissociando-os deste contexto sombrio que o cineasta Ingmar Bergmam, muito apropriadamente chamou num filme clássico de “O Ovo da Serpente”
No Haiti não existem ‘brancos’. Lá, a classe média ‘mulâtre’ oprime os ‘mais’ negros. O nazismo separava pessoas absolutamente brancas e as mandava á morte, baseando-se em diferenças físicas cosméticas: um nariz mais adunco, olhos pretos, etc. Claro que racismo não tem nenhum fundamento ‘científico’ ou ‘biológico’. Se baseia em pretextos, desculpas esfarrapadas.’Mitos’ em suma. Um cuidado que deve ser observado por todos que se dedicam a este assunto.
Ingênuas, marcadas talvez por certa dose de crueldade e frieza sim mas, de modo algum absurdas para a época, as propostas que animaram os sociólogos da primeira metade do século perderam a força exatamente quando se soube o que de fato elas representavam: Grosseiros equívocos. É isto que torna mais surpreendente o fato de existirem ainda hoje correntes de pensamento defendendo propostas semelhantes no Brasil, em pleno século 21, quando a panela de pressão da nossa conturbada sociedade já apita o sinal óbvio que diz:
_‘Cuidado! Abra a válvula que estamos prestes a explodir’.
A SALADA MISTA
e a sabedoria dos gibis
Há também, pode se observar embutida na argumentação, uma forçada e esdrúxula associação entre ‘nacionalismo retrógrado’ (de novo a xenofobia) e a ‘admissão de que há racismo no Brasil’. Admitir ou sugerir com um pouco mais de ênfase a existência de racismo no Brasil seria um comportamento ‘ultrapassado’, ‘de modè, expediente muito usado como uma – muito eficiente inclusive- tática para se desqualificar discursos antagônicos.
Esta questão, aliás, traz á luz o que parece ser o segundo eixo da questão: Afinal, porque será que em certos setores de nossa ‘inteligentsia’, se nega tanto e de forma tão estranhamente peremptória (com argumentos tão mal fundamentados), a existência de racismo no Brasil? Existiriam intenções nessa negativa tão insistente?
Negar a existência do monstro, todo mundo sabe, não vai jamais matar o bicho.
É preciso aprofundar também outros aspectos cruciais do racismo brasileiro (na verdade de todos os racismos). O fato de cientificamente não existirem raças não significa que não exista racismo. Não é um argumento pertinente nem mesmo aceitável. Vamos combinar, francamente: Racismo é um estúpido instrumento de dominação social, uma praga da humanidade. A sociedade brasileira é altamente excludente, certo? Não é preciso ser uma sumidade acadêmica para identificar qual é o instrumento de exclusão mais eficiente utilizado por aqui. Bingo para quem disser Racismo.
E vamos acabar também com esta falsa dicotomia: Problema Racial e Problema Social não são conceitos opostos ou divergentes. Um é a carne, o outro é a unha. Um não poderia, de modo algum, existir sem o outro.
Para qualquer um que sofre racismo ‘na pele’ fica evidente que o racista usa apenas um pretexto covarde, para discriminar: É fácil: Basta destacar uma diferença biológica qualquer e subestimá-la, demonizá-la, impondo uma marca, um estigma para identificar os portadores daquela suposta ‘deficiência’. O fisicamente diferente é declarado inferior e pronto. Do ponto de vista de quem quer discriminar, dependendo de seu interesse, ‘negros’ serão portanto, todos aqueles que, visivelmente, não se parecerem com ‘brancos’. No exercício da discriminação não existem ‘mulatos’, ‘mestiços’, ‘pardos’, todos são’ marrons’, inferiores, não por terem este ou aquele tom de pele, mas porque ‘não são brancos’. Ponto
Quando em minoria, no entanto, diante de algum interesse, alguma vantagem a ser obtida junto aos ‘marrons’, a hierarquização das ‘cores’ passa a ser muito proveitosa para a ‘raça’ hegemônica (a que está no poder). Pura política. A história humana está cheia de estratagemas como estes, nos quais com a finalidade de obter vantagens junto a um grupo estranho, nos associamos a um amigo ‘nativo’. É uma prática recorrente demais para não ser notada. Até mesmo nos saudosos gibis da infância de alguns de nós o arquetípico estratagema aparece.
Quem não sacou isto na função dramática do índio ‘Tonto’, amigão do Zorro norte americano ou na fidelidade á toda prova do gigante ’Lotar’, guarda costas do Mandrake. Quem não notou esta solidariedade esperta, interessada, no olhar do Fantasma, ‘Espirito- Que- Anda’ para o pigmeu Guran, seu fiel aliado, do alto do seu trono na caverna da caveira?
Descontando a paranóia nacionalista de alguns, no âmbito de nossa cultura contemporânea isto pode estar ocorrendo também com alguma freqüência. Você louva, aprende, assimila e pratica a cultura que um dia foi exclusiva (não que o pobre coitado quisesse se isolar) do negro ou do índio, do nordestino – tanto faz- mas não se importa muito que ele permaneça ad infinitun socialmente excluído, lá ‘no morro’, na selva ou no sertão. No processo você aprende a fazer Samba, Maracatu, a tomar chá do Santo Daime e a ficar doidão sem culpa. É bom. É politicamente correto. Dá a você um certo charme democrático, uma espécie de certificado de ‘responsabilidade social’ mas, e daí?
O problema é que ‘Ele’, o ‘Outro’, continua lá no seu canto, estressado de carências, fazendo o seu Funk pesadão. Cria-se assim (colocando os não brancos todos no mesmo saco) uma espécie de ‘Cultura negra sem negros’ e a gente não sabe muito bem no que isto vai dar. Se o cara não ficar rico fazendo Hip Hop, pode um belo dia dar um tiro em você.
Se for mesmo, como julgamos, além de uma mistificação cultural, uma impossibilidade genética em termos (não existem raças humanas, lembram-se?), A Mestiçagem, como conceito democratizador não passa mesmo é de um cruel sofisma. E esta tem sido a lógica do Sistema de castas ‘raciais’ no Brasil.
Todas as receitas de democracia racial (com ou sem eufemismo) em voga atualmente contêm um mesmo e azedo ingrediente, um mal crônico que lhes tira todo o sabor: Redistribuem valores culturais, garantindo a um certo grupo certas vantagens deles advindas, sem mudar as pessoas de lugar na pirâmide. Os que possuem quase tudo passam a possuir mais ainda. É a lógica fria de nossa elite predadora. A lei do mais forte. Qual é a novidade nisto aí?
(Agora, sem maniqueísmos, por favor)
Todo mundo sabe que este comportamento não é uma coisa assim percebida, exercida individualmente mas, é um procedimento, praticado pela grande maioria dos ‘brancos’ do Brasil, diariamente, muitas vezes até de forma ingênua, um comportamento padrão, arraigado, especializado por séculos de prática.
E saibam também que não é uma coisa fácil de extirpar não. É exatamente este o conteúdo subreptício, a essência de conceitos como a chamada ‘democracia racial’ e seus sucedâneos: dar sustentação, argumentos, justificativa teórica para esta deslavada contradição.
(Cabe aqui inclusive duas perguntinhas pra lá de capciosas: Ao propor a miscigenação geral como panacéia para os males do Brasil, da mesma forma que o ‘negro’, o ‘branco’ também desapareceria? Propor assim, de forma tão efetiva o desaparecimento de uma ou de outra ‘raça’ não é, classicamente, o mesmo que exercer racismo?)
Teorias… Um perigo latente para qualquer democracia, ainda mais a nossa que está patinando em sua reconstrução.
Como sempre – e pra finalizar- o melhor é dizer isto tudo com um Samba.
“Todo mundo era bom
todo mundo era legal
lá só dava gente bem
madame e fulano de tal
quando no meio da festa
reclamei com o Samuel:
Você diz que esta gente é honesta?
Já roubaram meu chapéu!
Não fico mais
em sua casa ô Samuel
aqui só tem eu de preto
mas não faço este papel
Não fico mais
em sua casa ô Samuel.
Você vai pagar meu chapéu”.
(Samba muito popular nos anos 70)
http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5/br/
Spirito Santo
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JONGO! Patrimônio imaterial?
3 03 2007
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