Artigo do Geraldo Ferreira De Araujo Filho -
consultor de estratégias corporativas, palestrante, professor e autor de
“A Criatividade Corporativa na Era dos Resultados” e
“Empreendedorismo Criativo, a nova dimensão da empregabilidade” – Acima de tudo 1º Secretário da Rede Brasil França. E que tem super relação com o artigo que escrevi em 2006 ” O novo capital é o trabalho“.
“I’m blonde. What’s your scuse? …”
em um adesivo de automóvel
Em uma segunda feira, mais especificamente no dia 6 de outubro de 2008, a crise econômico-financeira-moral americana aportou na União Européia e Japão retumbando, aguda, no resto mundo. As bolsas de valores planetárias mergulharam em profunda depressão e os principais bancos centrais tiveram que intervir para manter a liquidez e o vigor creditício de seus respectivos sistemas bancários. Passados aqueles momentos iniciais, entretanto, não cabiam mais dúvidas: responsabilizar o mercado imobiliário americano por esse tsunami que adentrou, inclusive, pelas terras altas da economia do, até então, tido e havido como primeiro mundo passou a ser, no mínimo, excesso de ingenuidade.
Afinal, aquela bolha não foi causa de coisa alguma. Foi inevitável consequência. Até porque, há pelo menos dez anos que a América, absolutamente exausta de tanto querer dar nó em pingo d’água, já vinha colocando a língua para fora. Não é tarefa fácil continuar repassando para o resto do planeta a sua particularíssima responsabilidade por seu muito exclusivo mau desempenho em, praticamente, todos os segmentos econômicos.
E a crise que, meramente, se anunciou por ali – e que, aliás, poderia ter ocorrido em algum outubro dos anos anteriores ou sobrevir, apenas, em algum dos próximos, vale o registro – converteu-se em uma destruidora sem precedentes de riquezas desmoronando, bem ao estilo dos castelos de cartas, bancos e demais organizações de todos os quadrantes de negócios que, até então, eram ícones em seus segmentos e considerados como estando acima do bem e do mal.
Uma atabalhoada mobilização dos diretamente envolvidos – América, União Européia e Japão – que optaram por uma gigantesca operação de centralização dos ativos financeiros e de uma injeção de dinheiro sem precedentes, pouco atenuaram as aflições dos mercados. Até porque, essa crise não é crise de bilhão. E vale o parêntese: exceto quando explicitamente ressalvado, a partir de então estaremos, sempre, conversando em moeda podre, dólares.
De acordo com a revista Time, somente nas primeiras dezesseis semanas do início do processo do desmonte econômico-financeiro daquele triunvirato foram injetados, via aporte direto de recursos, redução de impostos e demais mecanismos econômicos, dez trilhões. E isso foi, apenas, um instantâneo da ponta do iceberg. Presumirmos, portanto, que a ressonância magnética dessa massa submersa, gelada, silenciosa e invisível aponte para entre nove e onze PIB’s americanos – cuja média recente foi de doze e meio trilhões anuais – é ponderação cautelosa, tímida e modesta. Ou seja, estamos conversando sobre perdas reais de, no mínimo, cem trilhões. Daí para mais. Ou para muito mais.
Simultaneamente, o modelo autorregulador neoliberal anglo-americano (Thatcher-Reagan, 1970) que fazia parte do mesmo pacote do início da era da globalização e que, convenhamos, nunca funcionou muito bem, passou a vivenciar uma fase de acelerado descrédito, esgotando-se em si mesmo junto com as idéias econômico-hegemônicas dos derradeiros trinta anos do século passado chegando, inclusive, a intuir alguns analistas mais aventureiros que, no contrapeso desse imbróglio, a partir de então, ascenderia o “modelo chinês”: nacionalista, estadualizado, concentrador.
Muito pessoalmente acreditamos que, quer neoliberal quer estatizado, qualquer das saídas de emergência não se localizam em nenhum desses pontos extremos da geografia econômica posto que, ao longo da história, também nenhum dos modelos econômicos centralizadores funcionou a contento. Cabe ao Estado moderno, isto sim, ser o grande regulador e, fundamentalmente, atuante fiscalizador dos negócios particulares ou governamentais em todos os segmentos da economia, de forma a prevenir os engodos e a malversação dos dinheiros dos cidadãos, eleitores e contribuintes, por espertalhões travestidos de empreendedores.
E sob este aspecto o governo americano descurou completamente. A ponto de deixar transparecer estar mais embasbacado do que os que foram diretamente lesados pelos mercados autorregulados do neoliberalismo.
“Paris vale uma missa.”
Henrique IV, em 1593
A partir do final da segunda grande guerra, com a assinatura do Tratado de Breton Woods e a consequente criação do Banco Mundial e do FMI – Fundo Monetário Internacional -, a América alcançou transformar sua moeda nacional em dinheiro de circulação internacional, muito embora, vinte anos depois, em meados da década de 60, ela já não possuísse o necessário respaldo de base metálica – padrão ouro – que lhe garantisse valor de face tangível.
De toda forma, em 1958, já decorridos treze ou quatorze anos, o sistema de taxa fixa de câmbio estabelecido naquele documento assinado por quarenta e cinco países tornara-se completamente funcional e o marco alemão, a libra inglesa e o franco francês, dentre outras várias moedas, eram plenamente conversíveis, não apenas entre nações como também nas transações entre pessoas e demais instituições particulares.
Na teoria, isso significava que os bancos centrais dos países membros daquele acordo, entre os quais o Brasil, poderiam, a qualquer momento, transformar os dólares que possuíssem em ouro. Operacionalmente, entretanto, as barras do metal continuavam fisicamente acauteladas nos cofres do Federal Reserve Bank of New York e, a cada operação – com a chancela do FMI, registre-se – eram nominalmente transferidas a favor dos respectivos bancos centrais das nações credoras.
Essa plena conversibilidade propiciou que os bancos estadunidenses concedessem grandes financiamentos aos países europeus para a importação de bens e equipamentos made in usa, posto que a imutabilidade cambial assegurava que os valores dos empréstimos permaneceriam constantes durante toda a vigência do contrato. Também, e aproveitando-se da pontual fragilidade da economia européia naquele período, os americanos passaram a investir na aquisição de tradicionais empreendimentos europeus. Mas isso acabou por revelar-se um equívoco fatal.
Desconfiado, e com receio de ver seu país ser literalmente “comprado” pelos Estados Unidos, em fevereiro de 1965, Charles De Gaulle, então presidente da República Francesa, abre denúncia sobre o que chama de “privilégio exorbitante”, alegando que a América gastava à custa de uma inflação exportada para o resto do mundo uma vez que negociava com dólares ociosos – leia-se, não lastreados em ouro.
Então, e ao invés de aplicar o saldo das reservas da França em títulos do tesouro americano, como era o usual, De Gaulle levou ao limite a troca dos “dólares franceses” por ouro. Logo em seguida o Banco da Inglaterra engajou-se nessa mesma proposta e foi deflagrado um processo que, como bola de neve, acaba por expor a ilusória pujança da economia estadunidense do pós-guerra e, no bojo, bem pior que isso, uma ambígua postura ética. Graças a esse infausto comportamento da nação americana, é ali que o Tratado de Breton Woods começa a virar pó: como previra o presidente francês, a América não tinha o ouro suficiente que, presumidamente, deveria estar lastreando o valor de face de sua moeda.
E vale o comentário: realmente, assim ficava muito fácil para aquele país apresentar-se como sendo o artífice do melhor estilo de viver a vida até então jamais presumido, o “american way of life”. Ora, se for para poder valer uma metódica e coordenada emissão de cheques sem fundos, o “mode de vie français”, o “日本生き方”, o “modo di vivere italiano”, o “русский образ жизни”, o “deutsche Lebensart”, o “τρόπος της ζωής” e, até mesmo, um “jeitinho brasileiro de viver”, também seriam altamente viáveis.
A exemplo de Henrique IV – o rei de Navarra que abjurou o protestantismo por duas vezes, primeiramente para casar-se com Margarida de Valois em 1594, a rainha Margot a quem, posteriormente, já rei de França, também repudiou, voltando por breve período ao protestantismo para, em seguida, tornar a rejeitá-lo por motivações políticas – é a consagração do império da lei do “vale tudo desde que em benefício de meus interesses”. E à luz desse entendimento, não somente Paris, como Londres, Tóquio e Washington, por exemplo, também valem várias e várias missas, não é mesmo prezado leitor?
“A rigor, o problema não é o problema em si,
mas a atitude que assumimos em relação a ele.”
Kelly Young
De Gaulle, então, passa a agasalhar a sugestão de um de seus mais próximos conselheiros, Jacques Rueff, e propõe a criação de um sistema financeiro fundamentado em uma inquestionável base monetária que não carregasse a estampa de nenhuma nação em particular. Aquela proposta não conseguiu lograr uma apreciação mais consequente de seus fundamentos. De toda sorte, a moeda mundial de John Maynard Keynes, o bancor de 1943, também já havia sido tese rechaçada nas próprias tribunas de Breton Woods, inclusive pela França, muito embora, faça-se justiça, naquele momento, defendida, unicamente, pela América do Norte.
Tanto uma tese quanto outra, em nosso reservado juízo, pecavam por elegerem o padrão ouro como o fundamento de sua sustentabilidade. De toda sorte, talvez para a época ainda fosse necessário ser assim.
Em Março de 1971 a sangria do lastro americano tornou-se alarmante e, ao invés de arriscar o colapso, Richard Nixon, o então presidente dos Estados Unidos, opta por abandonar definitivamente o padrão ouro e adota um sistema de divisas flutuantes. Unilateralmente, portanto, a América muda as regras de um jogo que estava em pleno curso mas que já não lhe era mais favorável. Nada mais nada menos que isso mesmo. Simplesmente assim. Bem ao estilo “tô fora!”. E com uma peculiaridade originalíssima: continuou a ser o emitente e controlador dos cacifes do novo jogo que concebeu. Acredite quem puder ou rememore quem tiver um minimum minimorum de intimidade com a história contemporânea.
Aquela ruptura abriu a porta para uma fase inteiramente nova do chamado “século americano”: o controle sobre a política monetária foi privatizado e os grandes bancos particulares – Citibank, Chase Manhattan ou Barclays, dentre outros – assumem o papel que os bancos centrais exerciam no sistema ouro. Só que agora sem ouro algum. E a partir de então, as chamadas “forças de mercado” é que passaram a determinar o valor da moeda “internacional” norte-americana.
Dispensamo-nos de minudenciar que essa providência eliminou todo e qualquer obstáculo para que fossem impressos novos dólares de acordo com a avaliação das “prementes necessidades” que surgissem. Sem nenhum compromisso com qualquer tipo de lastro físico. Sem nenhuma intimidade com qualquer tipo de constrangimento. Simplesmente na base do “surgiu um probleminha urgente aqui pra resolver” ou na cara-de-pau mesmo, bem ao jeito da marchinha carnavalesca escrita por Moacyr Franco na década de sessenta: “hei!/ você aí/ me dá um dinheiro aí/ me dá um dinheiro aí…”.
E na pauta musical desse samba de uma nota só, tanto os passivos internos quanto os externos continuaram sendo pagos, exclusivamente, em dólares, criando um antecedente surrealista ou realista fantástico: a América passa a ser a única economia mundial, dentre todos os registros históricos existentes, cujas taxas de juros são determinadas pela política monetária interna dela mesma. Ou seja, é o país devedor quem define os percentuais que incidirão sobre a sua própria dívida externa.
Vale a ressalva: essa inconteste hegemonia estadunidense devia-se, em grande parte, ao encorpado marketing de que, não fosse a América os aliados do bloco ocidental seriam os maiores supridores de cabecinhas das crianças que seriam devoradas pelos russos. Hoje, no entanto, o contexto é outro: não os russos, mas sim os próprios americanos é que devem ser temidos. Afinal, já começaram a comer, não apenas as das suas próprias crianças como as da União Européia e do Japão. E pelo visto, parece-nos que ainda continuam com apetite leonino. Portanto, o resto do mundo que se acautele.
“A teoria monetária é como um jardim japonês:
uma aparente simplicidade esconde uma realidade sofisticada.“
Milton Friedman
Deflagrado o início dessa nossa presente conjuntura os Estados Unidos, prontamente, emitiram títulos públicos para serem oferecidos aos governos e investidores particulares e, portanto, se o atual momento continuar a ser administrado ao sabor dos padrões impostos pelo seu principal artífice, já já aquela nação estará, novamente, exportando para todo o planeta a conta de seus personalíssimos desacertos e reforçando-se, ao invés de se enfraquecer – como seria o esperado de uma economia em pleno apogeu de um processo de bancarrota – na conjuntura econômica planetária. Sem dúvida que é paradoxal. Também entendemos assim. Porém, se nada for feito, o que acontecerá é isso mesmo.
Qualquer pessoa que tenha a mais rudimentar, a mais primária, o mais embrionário, enfim, o mais incipiente conceito de bom senso, mesmo assim, não poderá conceber, jamais, a pretexto de qual argumentação possa esse tipo de entendimento estar a serviço, que uma economia que navega com todo o seu sistema bancário contabilizado como “passivo a descoberto”, com sua principal indústria, a automobilística, vivendo de permanentes e intermináveis subsídios e com os reflexos disso tudo afetando, diretamente, todos os demais nichos produtivos, possa estar com uma moeda estupidamente valorizada – perdoe-nos pela intempestividade da adjetivação, estimado leitor.
Todas as crises do “século americano” se fomentaram por intermédio do desprezo às regras e instituições que, em um momento anterior, haviam sido por lá criadas e consideradas boas para o mercado mas que, de repente, por um motivo ou por outro, em se transformando em entraves para seus projetos expansionistas, perdiam valor e eram rejeitadas como cartas que não mais interessavam para o jogo que, pontualmente, tivessem nas mãos. O crescimento dos Estados Unidos, que se iniciou no limiar do século passado, em nossa percepção aconteceu de forma absolutamente desordenada, haja vista que completamente desprovido de alicerces ético-morais que pudessem garantir “vida longa ao rei”, ou melhor, a qualquer rei de qualquer período conjuntural da história.
Desde sempre, o sucesso econômico e a expansão do poder de qualquer nação-líder serve de espelho e é basilar para o fortalecimento de todas as demais economias que orbitem aquele Estado hegemônico. A Pérsia de Ciro e de Dario, o quase concretizado sonho do mundo inteiro de Alexandre, o Egito da dinastia dos Ramsés e a Roma de todos os Césares, são exemplos clássicos. E de lá para cá nada mudou em relação a esses parâmetros. A poderosa e temida França napoleônica, o império Austro-Húngaro, que quando dissolvido transformou-se em 13 nações, o reino da Inglaterra, onde o sol não se punha jamais, e a América recente – todas essas potências modernas na mesma linhagem daqueles ancestrais DNAs guerreiros e dominadores – nos exoneram de qualquer dissertação mais particularizada.
E historicamente, da forma mais perversa, cruel e destrutiva, as crises por elas provocadas sempre arrastaram para limbos de difícil penitência os mundos considerados acessórios ou secundários – sobretudo os mais fragilizados economicamente – posto que o custo dos mega desatinos perpetrados, invariavelmente, são rateados por todos, independentemente de, sequer como meros serviçais – que bem ou mal usufruem dos restos – tenham participado daqueles banquetes nefandos. À custa disso, as nações dominadoras, via de regra, recuperam-se rapidamente, emergindo mais poderosas que antes.
De toda sorte, a herança do império americano que se despede abruptamente de sua fase hegemônica – e um pouco mais a frente, após os intrincados, complexos e impostergáveis acertos, passada a fase do embaraço de pela primeira vez ter que pagar sozinho a parte da conta que lhe diz respeito, ingressar na era do compartilhamento, da reciprocidade, da efetiva parceria e na da harmonia universal – é de uma riqueza fantástica: a nova ordem que se desenha pelas tintas fortes de um terceiro milênio que se impõe altaneiro e fulgurante é, antes de tudo, fruto de um desenvolvimento tecnológico sem precedentes e da unificação de toda essa cultura em uma linguagem universal, o idioma inglês.
“Crescer não é a mesma coisa que evoluir.
Crescer é ficar maior. Evoluir é ficar melhor.”
As estruturas de uma sociedade, quer relativamente às características linguísticas, às tradições ancestrais, ao estágio de desenvolvimento econômico, ao modus vivendi contemporâneo ou a alguma outra característica qualquer, não se alteram em um estalar de dedos, em um passe de mágica, de uma hora para outra, enfim. Principalmente se estivermos tratando de um contexto em que as nações, enquanto mais e mais se interdependem, no entanto, e antes de qualquer outra coisa, preservam-se (Deus é pai!) plurimulticulturais.
A hegemonia inglesa pós primeira grande guerra (1914-1918), mesmo quando a ascensão econômica da América tornou-se bastante evidenciada – assim como ocorre presentemente com o atual estágio brasileiro – ainda conseguiu sustentar a libra esterlina como moeda-padrão e durante algum tempo continuou, por intermédio dela, repassando todas as enfermidades de sua economia para o mundo civilizado. No entanto, em abril de 1919 o Reino Unido foi obrigado a abandonar a conversibilidade do ouro, retornando com ela somente em 1925, quando os Estados Unidos, que a tinham conseguido manter relativamente ao dólar, já se haviam transformado no novo pólo capitalista.
De qualquer forma, a mudança libra-dólar, como vimos assistindo durante todo esse período que culmina com essa vexatória crise sociomoral – e não econômico-financeira como ainda insistem em classificá-la grande parte dos analistas e da imprensa especializada – ficou essencialmente restrita à substituição das mazelas da rainha pelas do cowboy. Nada mais que isso. E mazela é mazela, independe de sotaque.
Avançando no tempo: dados estatísticos indicam que entre 2000 e 2005 o dólar despencou mais de 25% relativamente ao euro, o montante das reservas internacionais sustentadas naquela moeda européia alargou de 18% para 24% e, consequentemente, na partida dobrada dessa contabilidade, ou método veneziano de Luca Pacioli como preferem alguns, não podia dar outra: a participação de mercado da moeda americana caiu de 71% para algo em torno de 65%.
Ou seja, sob a ótica da contabilidade tradicional, nessa mais recente quadratura de sucessivos déficits na balança de pagamentos estadunidense o euro, naturalmente, ocupou espaço. Nada mais previsível. Nada mais esperado. Nada mais sem surpresas. Nada mais justo. Até porque, o Homem ainda não conseguiu patentear a fórmula do vácuo.
Mas raciocinar dessa maneira frente a esse “ultramega ciclone saneador” que, em nosso personalíssimo entendimento, é resultante da profunda irritação dos deuses de todos os credos com a nossa metódica aversão por enxergar o óbvio, não é a medida ideal. Hoje, trocar o dólar pelo euro é, nada mais nada menos, que trocar seis por meia dúzia. Ou melhor ajustando: três por três.
Tanto a União Européia quanto o Japão são, ambos, juntamente com a América, passageiros de uma mesma embarcação que, até anteontem, era tida e havida como a mais poderosa, a mais confortável, a mais rápida e, fundamentalmente, a mais moderna e insubmergível máquina de singrar os sete mares do planeta.
Subestimaram, todavia, o humor de Posseidon e acabaram – posto que a história venera desdizer os que se deixam seduzir pelas insensatezes da vaidade – descobrindo-se náufragos em um Atlântico Norte revolto pelos desmandos econômicos, pelas correntes fortes dos abusos financeiros, pelas águas geladas dos sofrimentos impostos aos inocentes de todas as guerras.
Também as ondas bravias de uma ética sistematicamente vilipendiada, elevando-se a metros e metros de suas cabeças, começaram a quebrar inclementes naquelas praias, invadindo territórios, alagando-os e os transformando em terras arrasadas.
A impressão que se tem é a de que tanto os deuses quanto os demônios de todas as eras e discursos iniciaram, conjuntamente e impacientados, como que em cumprimento de sagradas e urgentes profecias que não mais podem por nada mais aguardar, um radical processo de divisão de águas estabelecendo, sem qualquer clemência, a quebra dos ícones e totens que, até então, norteavam os destinos da humanidade. Como se alertassem de que é chegada a hora do basta ao crescimento à custa da aflição alheia. Como se houvessem estabelecido o esgotamento dos prazos para as mal sucedidas tentativas reencarnatórias de aprendizado. Como se intuíssem de que é chegada a hora de evoluir.
“Morrer por uma causa não faz com que essa causa se torne justa.“
Henry de Montherlant
Na União Européia, há ainda outros complicadores historicamente agregados que, independentemente dessa disciplinadora convulsão sociomoral, já margeavam os litorais daquele continente.
Edward Samuel Miliband, desde 2007 no gabinete de Gordon Brown – o sucessor de Tony Blair como primeiro ministro da Inglaterra – foi o porta-voz da notícia de que o Reino Unido “não se submeterá ao sistema monetário europeu, nem aceitará qualquer tipo de soberania imperial ou de política externa unificada sob o comando de Bruxelas”. Por seu turno, o liberal Nicolas Sarkozy toma decisões que colocam a França em confronto direto com a Alemanha e com quase toda a União Européia: advoga abertamente que o BCE – Banco Central Europeu – deveria intervir para desvalorizar o euro. Angela Merkel, por sua vez, retruca do mais confortável bunker da Europa acusando o presidente francês de tentar desestabilizar o euro e a independência do BCE.
Para dar um tempero ainda mais picante a essa mélange fatidique, Vladimir Putin, from Russia without love, reclama da instalação de antimísseis interceptadores na Polônia, de radares na República Tcheca e promete retaliar com a ativação dos intercontinentais Bulava-M, que podem transportar até dez ogivas nucleares de trajetórias independentes, dificultando aquela ação de defesa. Por sua vez, via OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte -, a América aproveita para despejar mais gelo nos copos dos habituais freqüentadores dessa feira de vaidades, com o intento de vivificar o retorno daquele nosso velho e conhecido drink, o cold war.
Afinal, seriam dois coelhos gordos, de uma só vez, para uma mesma panela: a volta do marketing da guerra nuclear e, no rastro disso, da inconteste estrela de xerife. E para quem, desde sempre, e paradoxalmente, só conseguiu sobreviver acionando a sua poderosa máquina de matar, seria jogada de mestre. Prato feito. Melhor que isso: a atual crise fomentada pelos Estados Unidos ao longo das últimas décadas juntamente com seus fiéis escudeiros, a Europa e o Japão, acabaria de uma hora para a outra contabilizada em um livro razão desprovido de regras claras e universais, a débito da conta do medo institucionalizado.
Um oportuno registro: América do Norte e União Européia respondem, hoje, por algo em torno de 75% do gasto mundial com armamentos – um pouco mais de seiscentos bilhões – e o orçamento do Japão para a guerra, muito embora constitucionalmente lhe seja proibido guerrear, flutua ao sabor das marés que circundam aquelas ilhas e despejam em suas praias, anualmente, quarenta. Nunca é demais lembrar que continuamos conversando em moeda podre.
Ou seja, ao invés de se despreconceitualizarem, cada vez mais se aprofundam nas entranhas dos parâmetros caducos, decrépitos, esclerosados e senis de um ultrapassado primeiro mundo tornando, consequentemente, bem mais árduas suas ascensões para o terceiro. Esquecem-se de que nessa marcha, possivelmente ainda terão de fazer um muito prolongado pit stop no segundo e que, portanto, não há tempo a perder com os embates de egos.
No entanto, completamente embriagados pelos próprios discursos, ainda não conseguiram aperceber-se dessa repentina, e já materializada, inversão de escala e, em estado de perplexidade máxima, continuam apegados a referenciais que já não mais existem, digladiando-se pelos restos de uma fortuna que soçobrou com as embarcações com que pirateavam o planeta mas que, hoje, adormecem inertes nos abismos oceânicos, relegadas ao cumprimento de um destino de inevitável corrosão.
Aliás, um dos grandes complicadores que esses países diretamente envolvidos com as guerras de todos os tempos terão de enfrentar para fazer dinheiro ou, pelo menos, estancar a sangria – e, registre-se, muito mais breve do que presumem – é, justamente, o da desmobilização militar, fato que irá gerar uma sucata hy-tech sem precedentes. Nosso conselho, se é que alguém por lá o está pedindo – não cremos – é de que comecem, desde logo, a conversar com a Coca-Cola e com a ImBev, por exemplo, sobre a intenção de derreter os submarinos nucleares, os tanques, os fuzis-metralhadoras e os caças de última geração com vistas a transformá-los em tampinhas de refrigerantes ou em latas de cerveja.
Na mesma linha de raciocínio, a modificação dos gigantescos porta-aviões em hotéis flutuantes ou embarcações de cruzeiros turísticos, não nos parece ser hipótese descartável. De toda sorte, manter esse aparato todo funcionando é letra morta. Não dá para continuar. Custa caríssimo. E a nós nos parece muito evidente que acabou o dinheiro do primeiro mundo. De verdade.
Continuando então: é muito difícil poder imaginar a União Européia com este coeficiente de tensão, institucionalizando condições para que o euro floresça como substitutivo da moeda americana. Isso é matéria absolutamente imponderável na cabeça, até mesmo, de um economista neófito. Mesmo porque, como já constatamos, aquela ancestral comunidade está envolvida até o pescoço nesta débâcle sem parâmetros precedentes.
Assim sendo, antes mesmo de procurarem se enxergar enquanto bloco econômico, hoje, por lá afloram diversas questões internas gravíssimas, extremamente regionalizadas, exigindo atenções urgentes de seus particulares governos.
“Bush nos fez bem: errou tanto que virou progresso.”
Arnaldo Jabor
O primeiro mundo, ou o que sobrou dele, perdeu confiabilidade. A sistemática ausência de contato com a ética aflorou muito evidenciada nesta conjuntura, não nos permitindo qualquer complacência com seus artífices. Os que optaram por leiloar seus princípios, seus ideais, suas reputações, que se entendam com os que as arremataram. A cada qual a recompensa de suas escolhas. A cada qual o laurel correspondente ao exercício de seus livres arbítrios.
Por conta de sucessivas ações ilegítimas e espúrias, inúmeras nações esfacelaram-se, e ainda continua sendo assim, diante de medidas unilateralmente impostas e apresentadas como sendo, meramente, resultantes das forças naturais de mercado, mas que camuflavam, deliberadamente, o vírus de uma espoliação insensível, bruta e covarde na gênese de suas formulações.
Um sem número de vidas inocentes foram e ainda continuam sendo ceifadas por intermédio de ações deprecadas na busca psicótica de mais e mais glória, riqueza e poder. E essa hedionda inversão de valores foi o que acabou por converter-se em início, meio e fim de um generalizado processo de putrefação social, poucas vezes relatado ao longo de toda a História conhecida. Esse contemporâneo adultério ético, ou melhor, estupro moral, é bastante provável que só encontre paralelo nas gestões infames de Calígula ou de Nero, em uma Roma que, à época, também era tida e havida como o suprasumo do que, até então, já havia existido.
Em vista de tudo isso, o chamado primeiro mundo, que se abisma a olhos vistos como referência econômico-financeira mundial, deixa também de ser parâmetro como espectro social civilizado, posto que a confiança é substantivo que exige plenitude, que requer transparente, ajuizada e criteriosa fundição em liga gusa. A confiança não contempla a hipótese do talvez, do quiçá ou do quem sabe. A confiança é figadal inimiga do mais ou menos.
Os avanços tecnológicos não se encerram em si mesmos e muito menos abonam os desvarios perpetrados em seu nome. Os altíssimos investimentos nos segmentos de ponta requerem a justificativa de uma recíproca de prosperidade para a humanidade. Sem essa premissa, transformam-se em instrumentos de infortúnio. Em utensílios de desagregação. Em artefatos de adversidade.
O famigerado argumento da arma de destruição maciça do Iraque de Sadam Hussein – alvitre de uma propaganda descaradamente incipiente, de uma desfaçatez vil e de um cinismo desumano, somente comparáveis aos execrandos argumentos utilizados por Hitler para ascender e manter-se no comando de uma Alemanha completamente entorpecida e imbecilizada pelas promessas megalômanas de seus discursos que, registre-se, transitavam na mesma rota da selvajaria frenética empregada, anos depois, pelos russos estalinistas na Hungria sangrenta de 1956 – covardemente devastou os alicerces socioculturais daquela nação ancestral.
Finda a primeira parte do massacre iraquiano, “os aliados” dos contornos fronteiriços de Wall Street e, por tabela, da City londrina, regozijam-se vitoriosos: “o petróleo é nosso e, também, o padrão monetário internacional”.
Enganam-se os que procuram no 11 de setembro de 2001 justificativa para a incursão abjeta de 20 de março de 2003. Aquele comportamento nada mais aludiu que a um medo enorme de que outros países da OPEP – Organização dos Países Exportadores de Petróleo – seguissem o exemplo e trocassem os dólares por euros jogando definitivamente por terra a hegemonia dos Estados Unidos no conjunto das nações.
Também a aliança ensaiada pela a Russia e a Alemanha sob a liderança da França no início do milênio – esta última, aliás, a grande incentivadora de Sadam Husseim para aceitar o petroeuro como substitutivo do petrodólar – visava criar um contrapoder. No entanto, e em dando certo, isso apenas abonaria o prosseguimento do que restara de um “século americano” falido, só que, desta vez, com sotaque europeu. Ou seja, continuaria “tudo como dantes no quartel de Abrantes”. O euro e o dólar desde o início foram parceiros. Desde o início foram coniventes com tudo o que determinou seus atuais colapsos.
E em sendo assim, insistimos junto ao sapiente leitor para que continue atentando para uma fundamental minúcia, para um inquestionável detalhe, para um basilar pormenor: a crise é deles. A crise é lá. Até porque, o seu fundamento gerador – o mais absoluto despojamento de qualquer resquício que pudesse dar a mais leve impressão de que fosse pretendido um ambiente com um mínimo de sintonia com a ética e a moral – foi o grande articulador da derribada dos padrões aceitáveis de convivência em todo o mundo. E esse cenário foi, não apenas edificado por eles mesmos como, também a peça, compulsivamente por lá encenada e sempre por um elenco de protagonistas nativos.
“A técnica e a tecnologia são muito importantes.
Mas aumentar a confiança é que é a grande questão da nossa atualidade.“
Tom Peters
Vigindo ainda como moeda universal, o dólar, no entanto, encontra-se nos extertores enquanto padrão monetário extra-fronteiriço. Suas recentes valorizações – aloucadas, esdrúxulas, delirantes – nada mais aludem que à visita da saúde ao leito do morimbundo desenganado. E a contagem regressiva dessa efeméride, muito embora ainda sejam pouquíssimos os que disso se tenham apercebido, já começou. A comunidade internacional não irá ficar assistindo, passivamente, o progressivo repasse da degeneração daquela economia para o resto do mundo. Também o euro, como cremos que já tenha sido amplamente entendido, está completamente fora de conjectura como substitutivo do que quer que seja, até mesmo do dólar zimbabuano.
Restariam o yen japonês, o rublo russo, a rupia indiana, o yiuan chinez e, já que é assim, por que não o real brasileiro? Ocorre algum outro nome de alguma outra moeda? Que tal então um repeteco da libra esterlina? Pois é, por mais que se mexa e remexa não há candidatos disponíveis. Mas também prosseguir como está é impensável. Não dá mais para continuar carregando os ditos países de primeiro mundo nas costas.
Portanto, no frigir dos ovos os desdobramentos desta crise são redentores, posto que começam a clarificar um entendimento generalizado relativamente à desobrigação das demais nações em ter que arcar com os custos daquelas calamitosas, frequentes e irresponsáveis ações entre eles mesmos e que tem como pedra angular de sua filosofia o conhecido adágio “amigo meu não tem defeito, inimigo, se não tiver eu boto.” Porém, melhor que tudo o mais é o fato de não ter havido a necessidade de, sequer, ter sido desfechado um só tiro. Ou melhor explicitando: os tiros foram disparados por eles mesmos, só que em seus próprios pés, caracterizando uma atípica ocorrência de “fogo amigo”.
Todas as recentes reformas do sistema monetário internacional implicaram em um acréscimo da inflação internacional. Com ou sem o padrão ouro vigendo. E hoje, algo entre 65% e 70% do comércio mundial acontece em dólares. É muita coisa. Quer seja na China, na Venezuela, no Egito, na França, na Austrália, no México, na Alemanha, no Chile, na Rússia, na Itália, no Japão ou no Brasil, os países são forçados a controlarem seus déficits comerciais a fim de evitarem o colapso de suas reservas estratégicas. Já a América do Norte não precisa preocupar-se muito com isso. Afinal, não é o dólar a divisa oficial das reservas de todos os bancos centrais? Afinal, esses bancos centrais não precisam arranjar dólares para importar petróleo e tudo o mais? E, finalmente, a maquininha de rodar os dólares lastreados em ajuizamentos etéreos também não fica por lá? Pois é douto leitor, é assim que a banda toca.
E já que é assim, pegamos uma carona no portfólio musical de Johnny Rivers, o brilhante compositor e excelente intérprete norte-americano que conheceu no final dos anos sessenta o ápice de sua carreira, e aproveitamos para fazer a pergunta que materializa e justifica todas estas linhas antecedentes: do you wanna dance?, ou por outra, – do you wanna continue dancing?
“Justo quando a lagarta achou que o mundo se tinha acabado,
ela virou uma borboleta.”
McMillen
Desde quando inventada pelos sumérios, há mais de 5000 anos, a moeda transformou-se no símbolo mais conhecido e desejado do mundo. No entanto, qualquer moeda, em qualquer tempo, nunca foi uma realidade em si mesma, mas sim uma alegoria a que, pontualmente, se atribuiu determinado valor. Aliás, Milton Friedman, o liberal de carteirinha, destacado monetarista, Premio Nobel de Economia em 1976, e que faleceu exatos trinta anos depois daquela premiação, resumia isso muito bem: “esses pedaços de papel verde têm valor porque todo mundo acha que eles têm valor”. Ora, em bom português essa assertiva nada mais significa que a resposta a pergunta mais sem resposta do atual momento econômico-financeiro mundial: “onde está o lastro garantidor do valor de face do dólar?”.
Por sua vez, Ademir Buitoni, doutor em direito econômico pela FDUSP – Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo – entende que “a financeirização da economia, que agora atingiu o seu auge, é a inconteste representante do aspecto mais dominante da atual crise”. Ou seja, continua bailando no ar uma pergunta análoga: “afinal, o que garante essa atual e absurda valorização do dólar?”.
Também Carl Marx, desde sempre preocupou-se em alertar para o uso indevido da moeda posicionando-a, continuamente, em seu conciso, porém importantíssimo espaço: o de peça precipuamente instituída para ser usada como coeficiente facilitador das permutas, dos intercâmbios, das trocas, da conversibilidade, enfim. Nunca, porém, em hipótese alguma, como reserva de valor, na base do “eu quero ganhar dinheiro para poder comprar mais dinheiro”. Melhor decodificando: da mesma forma que não se come dólares, euros ou reais, claramente, então, perceber qualquer moeda, no contexto que for, como mercadoria ou serviço, é inverter a ordem natural. É desamparar a fundamentação exclusiva de sua essência, haja vista que a moeda não é e nunca foi ou será o objetivo do sistema econômico. A moeda é meio, jamais finalidade.
Paul Robin Krugman, que é professor de economia e assuntos internacionais na Universidade de Princeton, medalha John Bates Clark pela American Economic Association em 1991, Nobel de Economia em 2008, membro do Grupo dos Trinta do Corpo Econômico Internacional – o G-30 – colunista do The New York Times e que, dentre mais de vinte títulos, é autor de “International Economics: Theory and Policy”, um texto básico para o estudo da economia internacional, em recente artigo defendeu a estatização dos bancos americanos sob a alegação de que “… são bancos-zumbis, incapazes de suprir o crédito de que a economia necessita…”, “… os fundos necessários para pôr esses bancos de volta aos trilhos ultrapassariam em muito o valor atual dessas instituições”.
Por sua vez, Joseph Stiglitz – em 1999 demitido do Banco Mundial a pedido de Larry Sammers, o secretário do tesouro americano que orquestrou uma excomunhão pública porque ele havia expressado seu primeiro desacordo diante da globalização “à moda” daquela instituição – Premio Nobel de Economia em 2001, pertencente à chamada corrente neokeynesiana e que vem desenvolvendo estudos que tem contribuido para o surgimento de uma subcorrente de pensamento denominada neodesenvolvimentista, avalia que o atual momento do primeiro mundo representa o desmoronamento dos alicerces da ideologia dos mercados livres e da liberalização financeira, uma vez que, justamente as organizações que por isso se distinguiam, foram as primeiras a se lançarem ao abrigo das asas do Estado.
“As instituições financeiras foram capazes de pilhar os correntistas devido à falta de concorrência… Não podemos nos ver em situações em que uma empresa é muito grande para falir… A crise de Wall Street é para o fundamentalismo de mercado o que a queda do muro de Berlim representou para o comunismo. Ela diz ao mundo que este modo de organização econômica é insustentável… Há um tempo nos disseram que estava tudo bem. Seis meses depois que a economia estava melhorando. Agora, que o paciente precisa de uma grande transfusão. Mas o que todo mundo vê mesmo é que o enfermo padece de uma dificilmente estancável hemorragia interna…”. Concomitantemente, Stiglitz também faz defesa incisiva relativamente à criação de uma moeda global a fim de evitar os tradicionais e muito nossos conhecidos problemas decorrentes do uso do dólar norteamericano.
Em presença de todo esse atual contexto, a China, que acasula reservas de 1,5 trilhão – as maiores do mundo, não obstante o progressivo estágio de esfarelamento daquele tesouro – começa a dar sinais de acentuado desconforto em relação ao atrelamento de seus ativos internacionais a um padrão monetário irremediavelmente mambembe. Da mesma forma, também os países árabes exportadores de petróleo. Ao mesmo tempo, as nações emergentes não aspiram submergir às atmosteras que já foram vencidas à custa de diuturnos e árduos exercícios de descompressão. A conclusão, portanto, é manifesta: o balizamento das relações econômicas internacionais não pode continuar a reboque de uma moeda desgovernada, sem freio, ladeira abaixo.
De toda sorte, paciente leitor, o mundo não acabou. O que extertora são as leoninas fundamentações filosóficas que sempre balizaram os procedimentos dos Estados hegemônicos ao longo de toda a jornada escrita do Homem. O que não tem mais lugar é a conduta predatória das economias mais desenvolvidas relativamente às mais acanhadas. O que se encerra é o sinistro ciclo de repasse dos insucessos das nações controladoras da poupança mundial para as que, em momento algum, sequer foram chamadas a ajuizarem opinião.
Basicamente, o foco das crises precedentes sempre esteve vinculado ao excesso ou à escassez de produção e a alguns periféricos, como o controle de preços, a proibição de importações ou o subsídio a elas. A questão, no entanto, agora é outra: como lidar com os equívocos de um liberalismo tratado com descabida tolerância e que, a quarenta mil pés de altitude, perdeu comando e entrou em incontrolada estolagem?
Um pouco antes da virada do milênio a América começou a enunciar inquestionáveis sinais de que algo censurável se infiltrara em seu sistema financeiro atrelando-o, completamente, às oscilações especulativas das bolsas de valores: o capital volátil atropelou o investimento produtivo determinando a busca alucinada de um lucro que se colocava acima de tudo e de todos. Somente em 2002, esse cassino global movimentou algo em torno de 1 quatrilhão e 78 trilhões – continuamos, sempre, em moeda podre – contra cerca de 70 trilhões na economia real. As lideranças do primeiro mundo preferiram fingirem-se de mortas. Ou com mais exatidão: optaram por vestirem-se com as melhores roupas de domingo e adentraram nessa festa pela porta da frente, pisando em macios tapetes cor de sangue.
É, portanto, chegada a hora da implementação de um padrão monetário inacessível às especulações de mercado, imune a qualquer corrosão inflacionária, indiferente às pontuais necessidades desse ou daquele país, refratário às ingerências políticas que apenas privilegiam o “bom senso” das nações mais poderosas e, fundamentalmente, onde reserva de valor nada mais signifique que o efetivo, real e palpável momento de uma determinada economia face à quadratura em que estiver sendo analisada. É chegada a hora da separação do joio do trigo: a cada qual pelo seu efetivo merecimento.
“Qualquer ordenamento de poder só encontra justificativa no bem comum,
na implementação de uma ordem social justa. Dessa forma, o poder não deverá, nunca, servir para proteger os interesses de um grupo em detrimento do de outros.”
Karol Jósef Wojtyla
Todas as ocasiões em que as teses das “moedas sem face” foram levantadas, quer por John Maynard Keynes em 1943 quer no final dos anos sessenta por Jacques Rueff ou por Josef Stiglitz no artigo publicado em janeiro de 2007 – “O mundo está hoje muito mais globalizado que então… A necessidade da reforma é ainda maior… O que está claro é que os dias da reserva em dólar estão contados… O mundo precisa de um sistema financeiro global melhor… A instabilidade está instalada: à medida que mais e mais dólares fiquem em mãos estrangeiras como reserva, torna-se praticamente inevitável que a confiança no dólar desapareça… A questão não está em saber se tal irá acontecer, mas quando… Com algum esforço poderíamos adaptar as idéias de Keynes à realidade atual… Retomaremos essas questões antes ou depois da próxima crise?…”- em nosso ajuizamento pecaram por continuarem insistindo no padrão-ouro como lastro garantidor. E isso, convenhamos, nada mais significa que colocar uma carroceria nova sobre um chassi pré-existente e que, sabidamente, criou mais problemas que soluções.
Nossa proposta, então, é a de que seja desenvolvida uma moeda virtual-conceitual – o criterium ou o conceitum – desde já alertando para o fato da escolha do nome muito pouco representar, uma vez que não se trata do lançamento de um novo produto de consumo, mas sim do estabelecimento de uma unidade agregadora de parâmetros com características de intangibilidade, não podendo, portanto, ser manuseada ou trancafiada em cofres fortes. Ou seja, com a função reserva de valor tradicional absolutamente inibida. Então, e para evitarmos demonstrar preferência, ou mesmo firmar posição relativamente à uma discussão burocrática e completamente oca – afinal, a eleição desse nome é mera perfumaria – a partir de então nos referiremos a ela como criterium-conceitum. Isto esclarecido, continuamos.
Estabelecidos os percentuais dos fatores da RVCS – Reserva de Valor para Crescimento Sustentado – que é o que dá consistência e lastro à esse novo mecanismo cambial, ao término de sua implantação serão banidas das relações das trocas internacionais quaisquer outras moedas territoriais que passarão a circular, especificamente, como medida de valor nos limites jurisdicionais das nações as quais estejam a serviço. Esse lastro será composto por coeficientes que traduzam o estágio do empenho de cada país frente os contemporâneos e impostergáveis desafios da moderna e irreversível transformação sócio-moral-cultural planetária.
Dentre outros, computando pontos favoráveis ou contrários, destacamos a abrangência do comprometimento com a rejeição da guerra, o alcance do envolvimento com a preservação ambiental, com a pesquisa de matrizes energéticas alternativas, com a disseminação do conhecimento intra e extrafronteiriço, com investimentos em inovação, com a solidariedade em debelar a fome mesmo que fora de sua jurisdição territorial, com a implementação de programas de inclusão digital, com o desenvolvimento de estudos que visem expandir a qualidade do conceito habitacional de massa e com o financiamento de pesquisas em prol da melhoria da saúde.
Também os coeficientes que hoje, pelo menos em tese, deveriam estar blindando o valor de qualquer moeda, comporiam este balaio conceitual: a produtividade industrial, a liquidez bancária, a idoneidade mercantil, o percentual de empregabilidade, a capacidade de autofinanciamento, a abrangência do mercado interno, o tamanho do PIB e o nível de renda per capita, seriam alguns deles.
Obviamente que outros parâmetros, tudo fruto dos debates que contemplarão a participação das nações dos quatro cantos do planeta – e não mais de apenas meia dúzia de oito ou dez G’s – enriqueceriam sobremaneira a proposta.
Assim sendo, frente a esse cenário, na mesma medida que um país possa ganhar pontos por uma produção vigorosa, parte deles pode desaparecer a débito da não contemplação do respeito por determinados princípios ecológicos. Na mesma linha, uma renda per capita pouco expressiva perde parte de sua dimensão negativa quando implementados investimentos voltados para o aprimoramento acadêmico em todos os níveis. Melhor explicitando: a reserva de valor deixa de ser representada por pedaços de papeis ou de metais e desloca-se para a efetiva capacidade de ajuste de cada uma das nações em cada um dos itens estabelecidos na RVCS.
Concludentemente, então: a reserva de valor, que hoje nada mais significa que um sorvedouro de recursos que ficam intocados em stand by sem qualquer vocação produtiva – apenas garantindo compromissos rotineiros do comércio internacional, demonstrando capacidade de pagamento aos parceiros econômicos ou mesmo a espera de uma possível crise – desaparecerá. Em seu lugar, passa a viger a RVCS. As nações passam a ser qualificadas, unicamente, pela abrangência de seus desempenhos internos. A derrocada de uma passa a significar exatamente isso mesmo: a derrocada dela mesma, a queda de uma só. Ou seja, os coletivos nacionais passam a usufruir, especificamente, dos respectivos resultados que conseguem gerar. Positivos ou contrários.
A integridade desse novo ordenamento será escoltada por um “G” bastante abrangente – 30, 40, 50 – especificamente constituído para tal finalidade que, acompanhará, nação a nação, o enquadramento de cada uma delas em cada um dos quesitos previamente definidos e claramente minudenciados na RVCS, a fim de mensalmente, bimensalmente, trimestralmente, semestralmente ou anualmente, atribuir valor de conversão a cada uma das moedas nacionais frente à mundial.
De forma alguma esse plantel de especialistas exercerá papel de polícia, limitando-se a informar sobre as causas que levaram àquelas pontuações específicas – sustentando, enfraquecendo ou valorizando os respectivos status relativamente ao criterium-conceitum – e sobre as projeções de evolução daquele cenário, positivas ou negativas.
Também nesse organismo internacional se concentrarão diversos técnicos que, em missões itinerantes, atenderão os governos que solicitarem apoio para o estabelecimento de planos diretores que contemplem metas plausíveis de crescimento sustentado sem, no entanto, exercerem qualquer papel coercitivo na implementação das providências sugeridas. Cabe a cada Estado conversar internamente sobre a direção que pretenda seguir: a cada ação a sua recompensa, seja ela a almejada ou não.
Entenda-se que nenhuma nação pode comprar criterium-conceitum. A única forma de obtê-lo é através do comércio internacional, ou seja, “fabricando-o” no ambiente domiciliar e mantendo sua boa cotação através de um adequado desempenho na RVCS. Extinguem-se, portanto, as aflitivas cotações diárias, ou mesmo horárias, que hoje calculam o valor da cesta de moedas frente o dólar. O criterium-conceitum, como toda moeda deveria ser, não é serviço ou bem de consumo. É mecanismo de troca. Meramente isso.
“Se você acha que deve existir uma forma de fazer melhor, mãos à obra:
descubra-a.”
Thomas Edson
Definidos os parâmetros que sustentarão o novo dinheiro mundial, sua implantação seguirá a mesma filosofia que foi adotada para a transformação do cruzeiro real em real, ou seja, valendo-se de um fator progressivo de conversibilidade do dólar para o criterium-conceitum, de forma a considerar as atuais reservas existentes em cada nação.
Concomitantemente, começam a ser avaliados os respectivos desempenhos de cada uma das economias nacionais, relativamente à capacidade de adaptação ao novo arquétipo monetário, a RVCS. Esse processo deve perdurar entre 12 e 18 meses. Portanto, em no máximo um ano e meio, com o ciclo do processo de conversão finalizado, as moedas territoriais restringem-se, definitivamente, aos seus respectivos espaços jurisdicionais e o criterium-conceitum começa a balizar toda e qualquer operação de troca em âmbito planetário.
Na prática isso significa que, já mesmo durante a fase de implantação, as atuais reservas brasileiras, algo em torno de 200 bilhões, podem, paulatinamente, irem se transformando em maciços investimentos nas prioridades internas, uma vez que o status frente à nova moeda será definido, dentre outros coeficientes, pela capacidade de autofinanciamento e não mais pela quantidade de dólares que cada nação, pontualmente, tenha em seus cofres. A nova moeda, como já dissemos, não é tangível. É virtual-conceitual. É moeda escriturada.
No caso da China, iniciado o processo de conversibilidade, de pronto – e sem absolutamente alterar seu desempenho em relação ao balanço de pagamentos – aquele país poderá dispor de algo em torno de 500 bilhões para injetar, por exemplo, em processos corretivos da poluição e assim melhorar consideravelmente sua visibilidade nesse quesito que, com toda certeza, terá um peso bastante expressivo no escopo da nova moeda. Aliás, e haja vista nossa própria pouca intimidade com a operacionalização do novo padrão monetário, quase passou-nos despercebido que aquele país ganhará pontos em duas frentes: por dizer não à poluição e pela capacidade de autofinanciamento.
É para ficar bastante claro que o que hoje for considerado reserva de valor em stand by, 200 bilhões no Brasil e 1,5 trilhão na China, por exemplo, se intocadas até o término da conversão, contabilmente, continuarão disponibilizadas para os respectivos países, já, porém, em criterium-conceitum. Ocorre, no entanto, que em função da mais que traduzida quebra da economia real americana esta não seria a escolha acertada haja vista que, durante a consolidação do processo, dia-a-dia o dólar refletirá perda de valor aquisitivo.
Portanto, se desde o princípio do período de conversibilidade essas reservas começarem a ser utilizadas para suprir as deficiências de adaptação aos parâmetros dos coeficientes garantidores do “novo dinheiro” – a RVCS – os países aumentarão consideravelmente suas chances de as fermentarem e, consequentemente, de fazerem-nas valer mais do que representavam em dólar no início do processo, isso, obviamente, variando ao sabor dos resultados qualitativos dos investimentos aportados em suas respectivas economias internas.
A pontuação máxima que cada moeda territorial poderá conseguir será de 100% do somatório dos pesos atribuídos aos índices previamente definidos na RVCS. Assim sendo, teremos a moeda X valendo 30% de 1 criterium-conceitum, a Y valendo 78% e a Z 13%, por exemplo. Melhorá-las no ranking dependerá, exclusivamente, da atuação interna de cada nação frente aos fatores estabelecidos como sendo as metas universais a serem perseguidas.
Em presença dessa conjuntura o euro deixa de existir como moeda única e em seu lugar surge o euro italiano, o euro tcheco, o euro francês, o euro romeno, o euro holandês, o euro letão e, assim, sucessivamente. Não dá para estabelecer comparação entre as economias polonesa e a alemã, por exemplo. Nem ignorar que os chamados “Pigs” – sigla criada em inglês para referir-se a Portugal, Ireland, Greece e Spain – são países fortemente atingidos pela crise e que demandam urgente assistência de Bruxelas. De toda a sorte, o acrograma criado para caracterizá-los, se não é infeliz, excludente, preconceituoso o é, no mínimo, extremamente deselegante. São muito mais vítimas que propriamente artífices desse estado de falência sociomoral primeiro-mundista.
No caso da Hungria, para citar apenas um caso, a dívida externa atinge 100% do PIB e os recursos necessários para financiar o equilíbrio das contas externas em 2009 giram em torno de 30% dele. Ou seja, não há no mundo atual quem se proponha a bancar esse risco. Se houvesse, surgiria um segundo e definitivo óbice: o dinheiro do primeiro mundo acabou. Prova disso é que o apelo húngaro para que a União Européia abonasse um grande plano de resgate para o Leste foi rejeitado pelo eco de um sonoro não da Alemanha em Bruxelas. Resumindo a ópera: foram abatidos em pleno voo de saída do regime comunista. Um analista americano atualizou em poucas linhas a situação daquele bloco econômico: “A Europa Central e a Oriental se tornaram a subprime da União Européia”.
“Não são os grandes planos que dão certo. São os pequenos detalhes.“
Stephen Kanitz
Operacionalmente, a nova moeda pouco se difere dos padrões que vigem hoje. O como “fazer” criteriuns-conceituns, por exemplo, continua vinculado às operações de importação/exportação, ou seja, exatamente como hoje são “feitas” as divisas em dólar. O que se altera, como já vimos, é o modo de cálculo do efetivo valor de cada uma das moedas nacionais frente a esse novo protótipo que desvincula-se, por inteiro, das questões conjunturais da atual “nação-padrão”, no caso a América, agregando, inclusive, forte blindagem, de forma a impedir que aquele país continue repassando sua inflação para o planeta, que compre petróleo com o dinheiro do resto do mundo ou atrele ao seu mercado megaespeculativo – compulsivo inflador de bolhas – os esforços produtivos das demais nações.
Aclarando: qualquer operação internacional será feita via a transformação da moeda do comprador em criteriuns-conceituns que serão, imediatamente, disponibilizados em moeda local no território do país vendedor. O contato entre uma moeda e outra é fruto de uma contabilidade virtual. E o valor, tanto de uma quanto de outra não dependerá mais das conjunturas, quer do que restou da economia americana quer do que restou da do resto do primeiro mundo, mas sim de seus específicos desempenhos internos frente aos parâmetros da RVCS.
É claro que um investidor japonês, por exemplo, poderá continuar aplicando seus recursos pessoais nas bolsas de Nova Iorque, de Londres ou de São Paulo. E sem dúvida que isso continuará acontecendo. Só que, como é operação que tem como ponta aplicadora o espaço territorial Japonês e como ponta tomadora o dos Estados Unidos, a única forma de operacionalizar essa transação é via yen que, contabilizado em criterium-conceitum, aterriza por lá já em dólares estadunidenses.
Não há a menor hipótese de esse investidor fazer algum tipo de operação extrafronteiriça, relativamente ao que for, utilizando-se de alguma outra moeda que não seja a da origem territorial do recurso financeiro. Uma futura desaplicação da totalidade ou de parte desse quantitativo, obviamente, seguirá a mesma rota: dólar estadunidense/criterium-conceitum/yen. Da mesma forma, inexiste a hipótese do país destinatário da remessa não receber o valor a ser creditado em outra moeda que não a sua própria. O dólar estadunidense circula exclusiva e especificamente em território americano. Idem para o yen, relativamente às ilhas japonesas.
Ninguém, seja pessoa física ou jurídica, pode dispor, dentro dos territórios em que atuem, de outro tipo de moeda senão a que a daquele próprio país. Cremos que isto já ficou muito claro. É óbvio, no entanto, que o citado investidor japonês – ou qualquer outra pessoa física ou jurídica – poderá ter uma conta corrente, em seu nome ou no nome de alguma empresa, em dólares americanos, canadenses ou em pesos mexicano, desde que estejam depositados, especificamente, em alguma instituição financeira baseada no território dessas nações.
Evoluindo um pouco mais: se além do Japão, dos Estados Unidos, do Canadá e do México esse investidor fictício também tiver conta corrente em um banco no território francês e se predispuser a aplicar na Alemanha, o processo será exatamente o mesmo: euro francês/criterium-conceitum/euro alemão. No caso do turista comum, assim como já acontece hoje, a utilização do cartão de crédito e de saque é a melhor pedida haja vista que a única coisa que muda é o fator de conversibilidade, que deixa de ser o dólar dando lugar ao criterium-conceitum. Não há solução de continuidade. Os mecanismos operacionais existentes, se aplicam, todos, ao criterium-conceitum.
Ratificando, o criterium-conceitum tem como finalidade precípua duas funções primordiais: erradicar do consciente coletivo planetário a noção de que moeda é algo diferente que um mero padrão de conversão e de definir, territorialmente, o valor de cada uma delas, que será determinado em função das análises dos aproveitamentos nos deveres de casa que deverão ser aprontados, especificamente, por cada país de per si. No entanto, se for para melhorar a nota, nada impedirá de colar dos que estiverem liderando as notas da turma. Ou por outra, é aconselhável que seja assim.
“Evite a pressa antes do tempo e a lentidão ante a oportunidade.”
provérbio árabe
Nossa proposta, como já percebeu o culto leitor, é embrionária. É imperfeita. É conceitual. Longe de nós pretendermos estar esgotando o assunto. No entanto urge que comecemos, seriamente, a pensar na criação de uma moeda sem a face e os cacoetes de qualquer nação. Como está é injusto. Como está é tortuoso. Como está é censurável. Como está é desonesto.
Tipicamente no caso brasileiro, deflagrada a crise em início de outubro, o dólar estadunidense variava por aqui no patamar de 1,50 real. Desnudada a economia americana – todo o sistema bancário no vermelho, toda a indústria automobilística quebrada, todo o comércio sem ter para quem vender – em menos de um mês o dólar quase dobrou seu valor por aqui. E isso não é natural. Isso não é o esperado. Isso não é, absolutamente, plausível.
O Brasil já participa, diretamente, em mais de um órgão chave das finanças internacionais: do Comitê de Basiléia de Supervisão Bancária, que tem por objetivo reforçar globalmente os padrões bancários que, até então, eram controlados, exclusivamente, pelos países ditos desenvolvidos, do FEF – Fórum de Estabilidade Financeira e do Comitê Técnico da Organização Internacional das Comissões de Valores – mais conhecido pela sigla inglesa IOSCO – que é quem estabelece os critérios para a regulação dos principais mercados internacionais.
A entrada do Brasil nesses organismos, juntamente com outros emergentes, não apenas colocou peso como desbancou o alquebrado G-8, até então o diretório econômico planetário, redefinindo toda a hierarquia de poder e contribuindo, sobremaneira, para a solidificação do G-20 como o centro das articulações econômicas globais.
Com o G-20 tomando parte, diretamente, dos processos de decisões do sistema financeiro global, na prática isso nada mais significa que já está em pleno andamento uma nova ordem internacional, muito embora sejam muito poucos os que disso consigam se aperceber. Principalmente aqui em nosso país. E com o irreversível alargamento da influência dos principais emergentes – Brasil, Rússia, Índia, China, Austrália, Coréia e México – essa progressão, inevitavelmente, os arrastará para uma participação bem mais expressiva no Banco Mundial e no próprio FMI.
Em dois de abril de 2009, em menos de um mês, portanto, acontece mais uma reunião do G-20 em Londres. Em nossa percepção, o tópico dominante versará sobre uma regulamentação consistente para o mercado financeiro internacional, incluindo-se aí as chamadas zonas de paraísos fiscais e a revisão da própria conceituação filosófica de todo o sistema bancário, mais notadamente em relação aos da Suíça, Áustria e Luxemburgo, velhos conhecidos como os grandes estimuladores da evasão dos impostos que, obviamente, não lhes pertencem. E enquanto América e o Reino Unido unem forças em defesa dos estímulos fiscais como mola mestra para a recuperação econômica, Alemanha e França contrapõem-se e exigem maior regulação do sistema financeiro internacional.
De toda forma, o planeta Terra cansou de acalentar as ancestrais mesmices e se prepara para dar início a um desenvolvimento em bases sociomorais bem mais consistentes que as que vinham sendo exercitadas pelas, até então, nações líderes. Portanto, não há hora, lugar e momento mais adequado para que a idéia da moeda universal seja reapresentada, até porque seria um ótimo tema central para o G-20 previsto para o próximo outubro.
E se é assim, parceiro leitor, por que não seria ela apresentada, já mesmo agora em abril, pela própria delegação brasileira que nos estará representando em Londres?
“O maior risco contemporâneo é o de não fazermos nada
enquanto todo o resto está mudando rapidamente.”
Walter B. Wriston