RELATÓRIO DO PLANETA TERRA

17 06 2009

Se a população da Terra fosse reduzida à dimensão de uma pequena cidade de 100 pessoas, poderia observar-se a seguinte distribuição:

57 Asiáticos
21 Europeus
14 Americanos (norte e sul)
08 Africanos
52 mulheres
48 homens
70 pessoas de cor
30 caucasianos
89 heterossexuais
11 homossexuais
06 pessoas seriam donas de 59% de toda a riqueza e todos eles seriam dos Estados Unidos da América
80 pessoas viveriam em más condições
70 não teriam recebido qualquer instrução escolar
50 passariam fome
01 morreria
02 nasceriam
01 teria um computador
01 (apenas um) teria instrução escolar superior

Fonte: PLANETA VOLUNTÁRIOS – Porque ajudar faz bem !!!
www.planetavoluntarios.com.br





Um Novo Ordenamento Monetário a prioridade absoluta da conjuntura econômica moderna

17 05 2009

Artigo do Geraldo Ferreira De Araujo Filho -
consultor de estratégias corporativas, palestrante, professor e autor de
“A Criatividade Corporativa na Era dos Resultados” e
“Empreendedorismo Criativo, a nova dimensão da empregabilidade” – Acima de tudo 1º Secretário da Rede Brasil França. E que tem super relação com o artigo que escrevi em 2006 ” O novo capital é o trabalho“.

I’m blonde. What’s your scuse? …”
em um adesivo de automóvel

Em uma segunda feira, mais especificamente no dia 6 de outubro de 2008, a crise econômico-financeira-moral americana aportou na União Européia e Japão retumbando, aguda, no resto mundo. As bolsas de valores planetárias mergulharam em profunda depressão e os principais bancos centrais tiveram que intervir para manter a liquidez e o vigor creditício de seus respectivos sistemas bancários. Passados aqueles momentos iniciais, entretanto, não cabiam mais dúvidas: responsabilizar o mercado imobiliário americano por esse tsunami que adentrou, inclusive, pelas terras altas da economia do, até então, tido e havido como primeiro mundo passou a ser, no mínimo, excesso de ingenuidade.

Afinal, aquela bolha não foi causa de coisa alguma. Foi inevitável consequência. Até porque, há pelo menos dez anos que a América, absolutamente exausta de tanto querer dar nó em pingo d’água, já vinha colocando a língua para fora. Não é tarefa fácil continuar repassando para o resto do planeta a sua particularíssima responsabilidade por seu muito exclusivo mau desempenho em, praticamente, todos os segmentos econômicos.

E a crise que, meramente, se anunciou por ali – e que, aliás, poderia ter ocorrido em algum outubro dos anos anteriores ou sobrevir, apenas, em algum dos próximos, vale o registro – converteu-se em uma destruidora sem precedentes de riquezas desmoronando, bem ao estilo dos castelos de cartas, bancos e demais organizações de todos os quadrantes de negócios que, até então, eram ícones em seus segmentos e considerados como estando acima do bem e do mal.

Uma atabalhoada mobilização dos diretamente envolvidos – América, União Européia e Japão – que optaram por uma gigantesca operação de centralização dos ativos financeiros e de uma injeção de dinheiro sem precedentes, pouco atenuaram as aflições dos mercados. Até porque, essa crise não é crise de bilhão. E vale o parêntese: exceto quando explicitamente ressalvado, a partir de então estaremos, sempre, conversando em moeda podre, dólares.

De acordo com a revista Time, somente nas primeiras dezesseis semanas do início do processo do desmonte econômico-financeiro daquele triunvirato foram injetados, via aporte direto de recursos, redução de impostos e demais mecanismos econômicos, dez trilhões. E isso foi, apenas, um instantâneo da ponta do iceberg. Presumirmos, portanto, que a ressonância magnética dessa massa submersa, gelada, silenciosa e invisível aponte para entre nove e onze PIB’s americanos – cuja média recente foi de doze e meio trilhões anuais – é ponderação cautelosa, tímida e modesta. Ou seja, estamos conversando sobre perdas reais de, no mínimo, cem trilhões. Daí para mais. Ou para muito mais.

Simultaneamente, o modelo autorregulador neoliberal anglo-americano (Thatcher-Reagan, 1970) que fazia parte do mesmo pacote do início da era da globalização e que, convenhamos, nunca funcionou muito bem, passou a vivenciar uma fase de acelerado descrédito, esgotando-se em si mesmo junto com as idéias econômico-hegemônicas dos derradeiros trinta anos do século passado chegando, inclusive, a intuir alguns analistas mais aventureiros que, no contrapeso desse imbróglio, a partir de então, ascenderia o “modelo chinês”: nacionalista, estadualizado, concentrador.

Muito pessoalmente acreditamos que, quer neoliberal quer estatizado, qualquer das saídas de emergência não se localizam em nenhum desses pontos extremos da geografia econômica posto que, ao longo da história, também nenhum dos modelos econômicos centralizadores funcionou a contento. Cabe ao Estado moderno, isto sim, ser o grande regulador e, fundamentalmente, atuante fiscalizador dos negócios particulares ou governamentais em todos os segmentos da economia, de forma a prevenir os engodos e a malversação dos dinheiros dos cidadãos, eleitores e contribuintes, por espertalhões travestidos de empreendedores.

E sob este aspecto o governo americano descurou completamente. A ponto de deixar transparecer estar mais embasbacado do que os que foram diretamente lesados pelos mercados autorregulados do neoliberalismo.

Paris vale uma missa.
Henrique IV, em 1593

A partir do final da segunda grande guerra, com a assinatura do Tratado de Breton Woods e a consequente criação do Banco Mundial e do FMI – Fundo Monetário Internacional -, a América alcançou transformar sua moeda nacional em dinheiro de circulação internacional, muito embora, vinte anos depois, em meados da década de 60, ela já não possuísse o necessário respaldo de base metálica – padrão ouro – que lhe garantisse valor de face tangível.

De toda forma, em 1958, já decorridos treze ou quatorze anos, o sistema de taxa fixa de câmbio estabelecido naquele documento assinado por quarenta e cinco países tornara-se completamente funcional e o marco alemão, a libra inglesa e o franco francês, dentre outras várias moedas, eram plenamente conversíveis, não apenas entre nações como também nas transações entre pessoas e demais instituições particulares.

Na teoria, isso significava que os bancos centrais dos países membros daquele acordo, entre os quais o Brasil, poderiam, a qualquer momento, transformar os dólares que possuíssem em ouro. Operacionalmente, entretanto, as barras do metal continuavam fisicamente acauteladas nos cofres do Federal Reserve Bank of New York e, a cada operação – com a chancela do FMI, registre-se – eram nominalmente transferidas a favor dos respectivos bancos centrais das nações credoras.

Essa plena conversibilidade propiciou que os bancos estadunidenses concedessem grandes financiamentos aos países europeus para a importação de bens e equipamentos made in usa, posto que a imutabilidade cambial assegurava que os valores dos empréstimos permaneceriam constantes durante toda a vigência do contrato. Também, e aproveitando-se da pontual fragilidade da economia européia naquele período, os americanos passaram a investir na aquisição de tradicionais empreendimentos europeus. Mas isso acabou por revelar-se um equívoco fatal.

Desconfiado, e com receio de ver seu país ser literalmente “comprado” pelos Estados Unidos, em fevereiro de 1965, Charles De Gaulle, então presidente da República Francesa, abre denúncia sobre o que chama de “privilégio exorbitante”, alegando que a América gastava à custa de uma inflação exportada para o resto do mundo uma vez que negociava com dólares ociosos – leia-se, não lastreados em ouro.

Então, e ao invés de aplicar o saldo das reservas da França em títulos do tesouro americano, como era o usual, De Gaulle levou ao limite a troca dos “dólares franceses” por ouro. Logo em seguida o Banco da Inglaterra engajou-se nessa mesma proposta e foi deflagrado um processo que, como bola de neve, acaba por expor a ilusória pujança da economia estadunidense do pós-guerra e, no bojo, bem pior que isso, uma ambígua postura ética. Graças a esse infausto comportamento da nação americana, é ali que o Tratado de Breton Woods começa a virar pó: como previra o presidente francês, a América não tinha o ouro suficiente que, presumidamente, deveria estar lastreando o valor de face de sua moeda.

E vale o comentário: realmente, assim ficava muito fácil para aquele país apresentar-se como sendo o artífice do melhor estilo de viver a vida até então jamais presumido, o “american way of life”. Ora, se for para poder valer uma metódica e coordenada emissão de cheques sem fundos, o “mode de vie français”, o “日本生き方”, o “modo di vivere italiano”, o “русский образ жизни”, o “deutsche Lebensart”, o “τρόπος της ζωής” e, até mesmo, um “jeitinho brasileiro de viver”, também seriam altamente viáveis.

A exemplo de Henrique IV – o rei de Navarra que abjurou o protestantismo por duas vezes, primeiramente para casar-se com Margarida de Valois em 1594, a rainha Margot a quem, posteriormente, já rei de França, também repudiou, voltando por breve período ao protestantismo para, em seguida, tornar a rejeitá-lo por motivações políticas – é a consagração do império da lei do “vale tudo desde que em benefício de meus interesses”. E à luz desse entendimento, não somente Paris, como Londres, Tóquio e Washington, por exemplo, também valem várias e várias missas, não é mesmo prezado leitor?

A rigor, o problema não é o problema em si,
mas a atitude que assumimos em relação a ele.

Kelly Young

De Gaulle, então, passa a agasalhar a sugestão de um de seus mais próximos conselheiros, Jacques Rueff, e propõe a criação de um sistema financeiro fundamentado em uma inquestionável base monetária que não carregasse a estampa de nenhuma nação em particular. Aquela proposta não conseguiu lograr uma apreciação mais consequente de seus fundamentos. De toda sorte, a moeda mundial de John Maynard Keynes, o bancor de 1943, também já havia sido tese rechaçada nas próprias tribunas de Breton Woods, inclusive pela França, muito embora, faça-se justiça, naquele momento, defendida, unicamente, pela América do Norte.

Tanto uma tese quanto outra, em nosso reservado juízo, pecavam por elegerem o padrão ouro como o fundamento de sua sustentabilidade. De toda sorte, talvez para a época ainda fosse necessário ser assim.

Em Março de 1971 a sangria do lastro americano tornou-se alarmante e, ao invés de arriscar o colapso, Richard Nixon, o então presidente dos Estados Unidos, opta por abandonar definitivamente o padrão ouro e adota um sistema de divisas flutuantes. Unilateralmente, portanto, a América muda as regras de um jogo que estava em pleno curso mas que já não lhe era mais favorável. Nada mais nada menos que isso mesmo. Simplesmente assim. Bem ao estilo “tô fora!”. E com uma peculiaridade originalíssima: continuou a ser o emitente e controlador dos cacifes do novo jogo que concebeu. Acredite quem puder ou rememore quem tiver um minimum minimorum de intimidade com a história contemporânea.

Aquela ruptura abriu a porta para uma fase inteiramente nova do chamado “século americano”: o controle sobre a política monetária foi privatizado e os grandes bancos particulares – Citibank, Chase Manhattan ou Barclays, dentre outros – assumem o papel que os bancos centrais exerciam no sistema ouro. Só que agora sem ouro algum. E a partir de então, as chamadas “forças de mercado” é que passaram a determinar o valor da moeda “internacional” norte-americana.

Dispensamo-nos de minudenciar que essa providência eliminou todo e qualquer obstáculo para que fossem impressos novos dólares de acordo com a avaliação das “prementes necessidades” que surgissem. Sem nenhum compromisso com qualquer tipo de lastro físico. Sem nenhuma intimidade com qualquer tipo de constrangimento. Simplesmente na base do “surgiu um probleminha urgente aqui pra resolver” ou na cara-de-pau mesmo, bem ao jeito da marchinha carnavalesca escrita por Moacyr Franco na década de sessenta: “hei!/ você aí/ me dá um dinheiro aí/ me dá um dinheiro aí…”.

E na pauta musical desse samba de uma nota só, tanto os passivos internos quanto os externos continuaram sendo pagos, exclusivamente, em dólares, criando um antecedente surrealista ou realista fantástico: a América passa a ser a única economia mundial, dentre todos os registros históricos existentes, cujas taxas de juros são determinadas pela política monetária interna dela mesma. Ou seja, é o país devedor quem define os percentuais que incidirão sobre a sua própria dívida externa.

Vale a ressalva: essa inconteste hegemonia estadunidense devia-se, em grande parte, ao encorpado marketing de que, não fosse a América os aliados do bloco ocidental seriam os maiores supridores de cabecinhas das crianças que seriam devoradas pelos russos. Hoje, no entanto, o contexto é outro: não os russos, mas sim os próprios americanos é que devem ser temidos. Afinal, já começaram a comer, não apenas as das suas próprias crianças como as da União Européia e do Japão. E pelo visto, parece-nos que ainda continuam com apetite leonino. Portanto, o resto do mundo que se acautele.

A teoria monetária é como um jardim japonês:
uma aparente simplicidade esconde uma realidade sofisticada.

Milton Friedman

Deflagrado o início dessa nossa presente conjuntura os Estados Unidos, prontamente, emitiram títulos públicos para serem oferecidos aos governos e investidores particulares e, portanto, se o atual momento continuar a ser administrado ao sabor dos padrões impostos pelo seu principal artífice, já já aquela nação estará, novamente, exportando para todo o planeta a conta de seus personalíssimos desacertos e reforçando-se, ao invés de se enfraquecer – como seria o esperado de uma economia em pleno apogeu de um processo de bancarrota – na conjuntura econômica planetária. Sem dúvida que é paradoxal. Também entendemos assim. Porém, se nada for feito, o que acontecerá é isso mesmo.

Qualquer pessoa que tenha a mais rudimentar, a mais primária, o mais embrionário, enfim, o mais incipiente conceito de bom senso, mesmo assim, não poderá conceber, jamais, a pretexto de qual argumentação possa esse tipo de entendimento estar a serviço, que uma economia que navega com todo o seu sistema bancário contabilizado como “passivo a descoberto”, com sua principal indústria, a automobilística, vivendo de permanentes e intermináveis subsídios e com os reflexos disso tudo afetando, diretamente, todos os demais nichos produtivos, possa estar com uma moeda estupidamente valorizada – perdoe-nos pela intempestividade da adjetivação, estimado leitor.

Todas as crises do “século americano” se fomentaram por intermédio do desprezo às regras e instituições que, em um momento anterior, haviam sido por lá criadas e consideradas boas para o mercado mas que, de repente, por um motivo ou por outro, em se transformando em entraves para seus projetos expansionistas, perdiam valor e eram rejeitadas como cartas que não mais interessavam para o jogo que, pontualmente, tivessem nas mãos. O crescimento dos Estados Unidos, que se iniciou no limiar do século passado, em nossa percepção aconteceu de forma absolutamente desordenada, haja vista que completamente desprovido de alicerces ético-morais que pudessem garantir “vida longa ao rei”, ou melhor, a qualquer rei de qualquer período conjuntural da história.

Desde sempre, o sucesso econômico e a expansão do poder de qualquer nação-líder serve de espelho e é basilar para o fortalecimento de todas as demais economias que orbitem aquele Estado hegemônico. A Pérsia de Ciro e de Dario, o quase concretizado sonho do mundo inteiro de Alexandre, o Egito da dinastia dos Ramsés e a Roma de todos os Césares, são exemplos clássicos. E de lá para cá nada mudou em relação a esses parâmetros. A poderosa e temida França napoleônica, o império Austro-Húngaro, que quando dissolvido transformou-se em 13 nações, o reino da Inglaterra, onde o sol não se punha jamais, e a América recente – todas essas potências modernas na mesma linhagem daqueles ancestrais DNAs guerreiros e dominadores – nos exoneram de qualquer dissertação mais particularizada.

E historicamente, da forma mais perversa, cruel e destrutiva, as crises por elas provocadas sempre arrastaram para limbos de difícil penitência os mundos considerados acessórios ou secundários – sobretudo os mais fragilizados economicamente – posto que o custo dos mega desatinos perpetrados, invariavelmente, são rateados por todos, independentemente de, sequer como meros serviçais – que bem ou mal usufruem dos restos – tenham participado daqueles banquetes nefandos. À custa disso, as nações dominadoras, via de regra, recuperam-se rapidamente, emergindo mais poderosas que antes.

De toda sorte, a herança do império americano que se despede abruptamente de sua fase hegemônica – e um pouco mais a frente, após os intrincados, complexos e impostergáveis acertos, passada a fase do embaraço de pela primeira vez ter que pagar sozinho a parte da conta que lhe diz respeito, ingressar na era do compartilhamento, da reciprocidade, da efetiva parceria e na da harmonia universal – é de uma riqueza fantástica: a nova ordem que se desenha pelas tintas fortes de um terceiro milênio que se impõe altaneiro e fulgurante é, antes de tudo, fruto de um desenvolvimento tecnológico sem precedentes e da unificação de toda essa cultura em uma linguagem universal, o idioma inglês.

Crescer não é a mesma coisa que evoluir.
Crescer é ficar maior. Evoluir é ficar melhor.

As estruturas de uma sociedade, quer relativamente às características linguísticas, às tradições ancestrais, ao estágio de desenvolvimento econômico, ao modus vivendi contemporâneo ou a alguma outra característica qualquer, não se alteram em um estalar de dedos, em um passe de mágica, de uma hora para outra, enfim. Principalmente se estivermos tratando de um contexto em que as nações, enquanto mais e mais se interdependem, no entanto, e antes de qualquer outra coisa, preservam-se (Deus é pai!) plurimulticulturais.

A hegemonia inglesa pós primeira grande guerra (1914-1918), mesmo quando a ascensão econômica da América tornou-se bastante evidenciada – assim como ocorre presentemente com o atual estágio brasileiro – ainda conseguiu sustentar a libra esterlina como moeda-padrão e durante algum tempo continuou, por intermédio dela, repassando todas as enfermidades de sua economia para o mundo civilizado. No entanto, em abril de 1919 o Reino Unido foi obrigado a abandonar a conversibilidade do ouro, retornando com ela somente em 1925, quando os Estados Unidos, que a tinham conseguido manter relativamente ao dólar, já se haviam transformado no novo pólo capitalista.

De qualquer forma, a mudança libra-dólar, como vimos assistindo durante todo esse período que culmina com essa vexatória crise sociomoral – e não econômico-financeira como ainda insistem em classificá-la grande parte dos analistas e da imprensa especializada – ficou essencialmente restrita à substituição das mazelas da rainha pelas do cowboy. Nada mais que isso. E mazela é mazela, independe de sotaque.

Avançando no tempo: dados estatísticos indicam que entre 2000 e 2005 o dólar despencou mais de 25% relativamente ao euro, o montante das reservas internacionais sustentadas naquela moeda européia alargou de 18% para 24% e, consequentemente, na partida dobrada dessa contabilidade, ou método veneziano de Luca Pacioli como preferem alguns, não podia dar outra: a participação de mercado da moeda americana caiu de 71% para algo em torno de 65%.

Ou seja, sob a ótica da contabilidade tradicional, nessa mais recente quadratura de sucessivos déficits na balança de pagamentos estadunidense o euro, naturalmente, ocupou espaço. Nada mais previsível. Nada mais esperado. Nada mais sem surpresas. Nada mais justo. Até porque, o Homem ainda não conseguiu patentear a fórmula do vácuo.

Mas raciocinar dessa maneira frente a esse “ultramega ciclone saneador” que, em nosso personalíssimo entendimento, é resultante da profunda irritação dos deuses de todos os credos com a nossa metódica aversão por enxergar o óbvio, não é a medida ideal. Hoje, trocar o dólar pelo euro é, nada mais nada menos, que trocar seis por meia dúzia. Ou melhor ajustando: três por três.

Tanto a União Européia quanto o Japão são, ambos, juntamente com a América, passageiros de uma mesma embarcação que, até anteontem, era tida e havida como a mais poderosa, a mais confortável, a mais rápida e, fundamentalmente, a mais moderna e insubmergível máquina de singrar os sete mares do planeta.

Subestimaram, todavia, o humor de Posseidon e acabaram – posto que a história venera desdizer os que se deixam seduzir pelas insensatezes da vaidade – descobrindo-se náufragos em um Atlântico Norte revolto pelos desmandos econômicos, pelas correntes fortes dos abusos financeiros, pelas águas geladas dos sofrimentos impostos aos inocentes de todas as guerras.

Também as ondas bravias de uma ética sistematicamente vilipendiada, elevando-se a metros e metros de suas cabeças, começaram a quebrar inclementes naquelas praias, invadindo territórios, alagando-os e os transformando em terras arrasadas.

A impressão que se tem é a de que tanto os deuses quanto os demônios de todas as eras e discursos iniciaram, conjuntamente e impacientados, como que em cumprimento de sagradas e urgentes profecias que não mais podem por nada mais aguardar, um radical processo de divisão de águas estabelecendo, sem qualquer clemência, a quebra dos ícones e totens que, até então, norteavam os destinos da humanidade. Como se alertassem de que é chegada a hora do basta ao crescimento à custa da aflição alheia. Como se houvessem estabelecido o esgotamento dos prazos para as mal sucedidas tentativas reencarnatórias de aprendizado. Como se intuíssem de que é chegada a hora de evoluir.

Morrer por uma causa não faz com que essa causa se torne justa.
Henry de Montherlant

Na União Européia, há ainda outros complicadores historicamente agregados que, independentemente dessa disciplinadora convulsão sociomoral, já margeavam os litorais daquele continente.

Edward Samuel Miliband, desde 2007 no gabinete de Gordon Brown – o sucessor de Tony Blair como primeiro ministro da Inglaterra – foi o porta-voz da notícia de que o Reino Unido “não se submeterá ao sistema monetário europeu, nem aceitará qualquer tipo de soberania imperial ou de política externa unificada sob o comando de Bruxelas”. Por seu turno, o liberal Nicolas Sarkozy toma decisões que colocam a França em confronto direto com a Alemanha e com quase toda a União Européia: advoga abertamente que o BCE – Banco Central Europeu – deveria intervir para desvalorizar o euro. Angela Merkel, por sua vez, retruca do mais confortável bunker da Europa acusando o presidente francês de tentar desestabilizar o euro e a independência do BCE.

Para dar um tempero ainda mais picante a essa mélange fatidique, Vladimir Putin, from Russia without love, reclama da instalação de antimísseis interceptadores na Polônia, de radares na República Tcheca e promete retaliar com a ativação dos intercontinentais Bulava-M, que podem transportar até dez ogivas nucleares de trajetórias independentes, dificultando aquela ação de defesa. Por sua vez, via OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte -, a América aproveita para despejar mais gelo nos copos dos habituais freqüentadores dessa feira de vaidades, com o intento de vivificar o retorno daquele nosso velho e conhecido drink, o cold war.

Afinal, seriam dois coelhos gordos, de uma só vez, para uma mesma panela: a volta do marketing da guerra nuclear e, no rastro disso, da inconteste estrela de xerife. E para quem, desde sempre, e paradoxalmente, só conseguiu sobreviver acionando a sua poderosa máquina de matar, seria jogada de mestre. Prato feito. Melhor que isso: a atual crise fomentada pelos Estados Unidos ao longo das últimas décadas juntamente com seus fiéis escudeiros, a Europa e o Japão, acabaria de uma hora para a outra contabilizada em um livro razão desprovido de regras claras e universais, a débito da conta do medo institucionalizado.

Um oportuno registro: América do Norte e União Européia respondem, hoje, por algo em torno de 75% do gasto mundial com armamentos – um pouco mais de seiscentos bilhões – e o orçamento do Japão para a guerra, muito embora constitucionalmente lhe seja proibido guerrear, flutua ao sabor das marés que circundam aquelas ilhas e despejam em suas praias, anualmente, quarenta. Nunca é demais lembrar que continuamos conversando em moeda podre.

Ou seja, ao invés de se despreconceitualizarem, cada vez mais se aprofundam nas entranhas dos parâmetros caducos, decrépitos, esclerosados e senis de um ultrapassado primeiro mundo tornando, consequentemente, bem mais árduas suas ascensões para o terceiro. Esquecem-se de que nessa marcha, possivelmente ainda terão de fazer um muito prolongado pit stop no segundo e que, portanto, não há tempo a perder com os embates de egos.

No entanto, completamente embriagados pelos próprios discursos, ainda não conseguiram aperceber-se dessa repentina, e já materializada, inversão de escala e, em estado de perplexidade máxima, continuam apegados a referenciais que já não mais existem, digladiando-se pelos restos de uma fortuna que soçobrou com as embarcações com que pirateavam o planeta mas que, hoje, adormecem inertes nos abismos oceânicos, relegadas ao cumprimento de um destino de inevitável corrosão.

Aliás, um dos grandes complicadores que esses países diretamente envolvidos com as guerras de todos os tempos terão de enfrentar para fazer dinheiro ou, pelo menos, estancar a sangria – e, registre-se, muito mais breve do que presumem – é, justamente, o da desmobilização militar, fato que irá gerar uma sucata hy-tech sem precedentes. Nosso conselho, se é que alguém por lá o está pedindo – não cremos – é de que comecem, desde logo, a conversar com a Coca-Cola e com a ImBev, por exemplo, sobre a intenção de derreter os submarinos nucleares, os tanques, os fuzis-metralhadoras e os caças de última geração com vistas a transformá-los em tampinhas de refrigerantes ou em latas de cerveja.

Na mesma linha de raciocínio, a modificação dos gigantescos porta-aviões em hotéis flutuantes ou embarcações de cruzeiros turísticos, não nos parece ser hipótese descartável. De toda sorte, manter esse aparato todo funcionando é letra morta. Não dá para continuar. Custa caríssimo. E a nós nos parece muito evidente que acabou o dinheiro do primeiro mundo. De verdade.

Continuando então: é muito difícil poder imaginar a União Européia com este coeficiente de tensão, institucionalizando condições para que o euro floresça como substitutivo da moeda americana. Isso é matéria absolutamente imponderável na cabeça, até mesmo, de um economista neófito. Mesmo porque, como já constatamos, aquela ancestral comunidade está envolvida até o pescoço nesta débâcle sem parâmetros precedentes.

Assim sendo, antes mesmo de procurarem se enxergar enquanto bloco econômico, hoje, por lá afloram diversas questões internas gravíssimas, extremamente regionalizadas, exigindo atenções urgentes de seus particulares governos.

Bush nos fez bem: errou tanto que virou progresso.
Arnaldo Jabor

O primeiro mundo, ou o que sobrou dele, perdeu confiabilidade. A sistemática ausência de contato com a ética aflorou muito evidenciada nesta conjuntura, não nos permitindo qualquer complacência com seus artífices. Os que optaram por leiloar seus princípios, seus ideais, suas reputações, que se entendam com os que as arremataram. A cada qual a recompensa de suas escolhas. A cada qual o laurel correspondente ao exercício de seus livres arbítrios.

Por conta de sucessivas ações ilegítimas e espúrias, inúmeras nações esfacelaram-se, e ainda continua sendo assim, diante de medidas unilateralmente impostas e apresentadas como sendo, meramente, resultantes das forças naturais de mercado, mas que camuflavam, deliberadamente, o vírus de uma espoliação insensível, bruta e covarde na gênese de suas formulações.

Um sem número de vidas inocentes foram e ainda continuam sendo ceifadas por intermédio de ações deprecadas na busca psicótica de mais e mais glória, riqueza e poder. E essa hedionda inversão de valores foi o que acabou por converter-se em início, meio e fim de um generalizado processo de putrefação social, poucas vezes relatado ao longo de toda a História conhecida. Esse contemporâneo adultério ético, ou melhor, estupro moral, é bastante provável que só encontre paralelo nas gestões infames de Calígula ou de Nero, em uma Roma que, à época, também era tida e havida como o suprasumo do que, até então, já havia existido.

Em vista de tudo isso, o chamado primeiro mundo, que se abisma a olhos vistos como referência econômico-financeira mundial, deixa também de ser parâmetro como espectro social civilizado, posto que a confiança é substantivo que exige plenitude, que requer transparente, ajuizada e criteriosa fundição em liga gusa. A confiança não contempla a hipótese do talvez, do quiçá ou do quem sabe. A confiança é figadal inimiga do mais ou menos.

Os avanços tecnológicos não se encerram em si mesmos e muito menos abonam os desvarios perpetrados em seu nome. Os altíssimos investimentos nos segmentos de ponta requerem a justificativa de uma recíproca de prosperidade para a humanidade. Sem essa premissa, transformam-se em instrumentos de infortúnio. Em utensílios de desagregação. Em artefatos de adversidade.

O famigerado argumento da arma de destruição maciça do Iraque de Sadam Hussein – alvitre de uma propaganda descaradamente incipiente, de uma desfaçatez vil e de um cinismo desumano, somente comparáveis aos execrandos argumentos utilizados por Hitler para ascender e manter-se no comando de uma Alemanha completamente entorpecida e imbecilizada pelas promessas megalômanas de seus discursos que, registre-se, transitavam na mesma rota da selvajaria frenética empregada, anos depois, pelos russos estalinistas na Hungria sangrenta de 1956 – covardemente devastou os alicerces socioculturais daquela nação ancestral.

Finda a primeira parte do massacre iraquiano, “os aliados” dos contornos fronteiriços de Wall Street e, por tabela, da City londrina, regozijam-se vitoriosos: “o petróleo é nosso e, também, o padrão monetário internacional”.

Enganam-se os que procuram no 11 de setembro de 2001 justificativa para a incursão abjeta de 20 de março de 2003. Aquele comportamento nada mais aludiu que a um medo enorme de que outros países da OPEP – Organização dos Países Exportadores de Petróleo – seguissem o exemplo e trocassem os dólares por euros jogando definitivamente por terra a hegemonia dos Estados Unidos no conjunto das nações.

Também a aliança ensaiada pela a Russia e a Alemanha sob a liderança da França no início do milênio – esta última, aliás, a grande incentivadora de Sadam Husseim para aceitar o petroeuro como substitutivo do petrodólar – visava criar um contrapoder. No entanto, e em dando certo, isso apenas abonaria o prosseguimento do que restara de um “século americano” falido, só que, desta vez, com sotaque europeu. Ou seja, continuaria “tudo como dantes no quartel de Abrantes”. O euro e o dólar desde o início foram parceiros. Desde o início foram coniventes com tudo o que determinou seus atuais colapsos.

E em sendo assim, insistimos junto ao sapiente leitor para que continue atentando para uma fundamental minúcia, para um inquestionável detalhe, para um basilar pormenor: a crise é deles. A crise é lá. Até porque, o seu fundamento gerador – o mais absoluto despojamento de qualquer resquício que pudesse dar a mais leve impressão de que fosse pretendido um ambiente com um mínimo de sintonia com a ética e a moral – foi o grande articulador da derribada dos padrões aceitáveis de convivência em todo o mundo. E esse cenário foi, não apenas edificado por eles mesmos como, também a peça, compulsivamente por lá encenada e sempre por um elenco de protagonistas nativos.

A técnica e a tecnologia são muito importantes.
Mas aumentar a confiança é que é a grande questão da nossa atualidade.

Tom Peters

Vigindo ainda como moeda universal, o dólar, no entanto, encontra-se nos extertores enquanto padrão monetário extra-fronteiriço. Suas recentes valorizações – aloucadas, esdrúxulas, delirantes – nada mais aludem que à visita da saúde ao leito do morimbundo desenganado. E a contagem regressiva dessa efeméride, muito embora ainda sejam pouquíssimos os que disso se tenham apercebido, já começou. A comunidade internacional não irá ficar assistindo, passivamente, o progressivo repasse da degeneração daquela economia para o resto do mundo. Também o euro, como cremos que já tenha sido amplamente entendido, está completamente fora de conjectura como substitutivo do que quer que seja, até mesmo do dólar zimbabuano.

Restariam o yen japonês, o rublo russo, a rupia indiana, o yiuan chinez e, já que é assim, por que não o real brasileiro? Ocorre algum outro nome de alguma outra moeda? Que tal então um repeteco da libra esterlina? Pois é, por mais que se mexa e remexa não há candidatos disponíveis. Mas também prosseguir como está é impensável. Não dá mais para continuar carregando os ditos países de primeiro mundo nas costas.

Portanto, no frigir dos ovos os desdobramentos desta crise são redentores, posto que começam a clarificar um entendimento generalizado relativamente à desobrigação das demais nações em ter que arcar com os custos daquelas calamitosas, frequentes e irresponsáveis ações entre eles mesmos e que tem como pedra angular de sua filosofia o conhecido adágio “amigo meu não tem defeito, inimigo, se não tiver eu boto.” Porém, melhor que tudo o mais é o fato de não ter havido a necessidade de, sequer, ter sido desfechado um só tiro. Ou melhor explicitando: os tiros foram disparados por eles mesmos, só que em seus próprios pés, caracterizando uma atípica ocorrência de “fogo amigo”.

Todas as recentes reformas do sistema monetário internacional implicaram em um acréscimo da inflação internacional. Com ou sem o padrão ouro vigendo. E hoje, algo entre 65% e 70% do comércio mundial acontece em dólares. É muita coisa. Quer seja na China, na Venezuela, no Egito, na França, na Austrália, no México, na Alemanha, no Chile, na Rússia, na Itália, no Japão ou no Brasil, os países são forçados a controlarem seus déficits comerciais a fim de evitarem o colapso de suas reservas estratégicas. Já a América do Norte não precisa preocupar-se muito com isso. Afinal, não é o dólar a divisa oficial das reservas de todos os bancos centrais? Afinal, esses bancos centrais não precisam arranjar dólares para importar petróleo e tudo o mais? E, finalmente, a maquininha de rodar os dólares lastreados em ajuizamentos etéreos também não fica por lá? Pois é douto leitor, é assim que a banda toca.

E já que é assim, pegamos uma carona no portfólio musical de Johnny Rivers, o brilhante compositor e excelente intérprete norte-americano que conheceu no final dos anos sessenta o ápice de sua carreira, e aproveitamos para fazer a pergunta que materializa e justifica todas estas linhas antecedentes: do you wanna dance?, ou por outra, – do you wanna continue dancing?

Justo quando a lagarta achou que o mundo se tinha acabado,
ela virou uma borboleta.

McMillen

Desde quando inventada pelos sumérios, há mais de 5000 anos, a moeda transformou-se no símbolo mais conhecido e desejado do mundo. No entanto, qualquer moeda, em qualquer tempo, nunca foi uma realidade em si mesma, mas sim uma alegoria a que, pontualmente, se atribuiu determinado valor. Aliás, Milton Friedman, o liberal de carteirinha, destacado monetarista, Premio Nobel de Economia em 1976, e que faleceu exatos trinta anos depois daquela premiação, resumia isso muito bem: “esses pedaços de papel verde têm valor porque todo mundo acha que eles têm valor”. Ora, em bom português essa assertiva nada mais significa que a resposta a pergunta mais sem resposta do atual momento econômico-financeiro mundial: “onde está o lastro garantidor do valor de face do dólar?”.

Por sua vez, Ademir Buitoni, doutor em direito econômico pela FDUSP – Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo – entende que “a financeirização da economia, que agora atingiu o seu auge, é a inconteste representante do aspecto mais dominante da atual crise”. Ou seja, continua bailando no ar uma pergunta análoga: “afinal, o que garante essa atual e absurda valorização do dólar?”.

Também Carl Marx, desde sempre preocupou-se em alertar para o uso indevido da moeda posicionando-a, continuamente, em seu conciso, porém importantíssimo espaço: o de peça precipuamente instituída para ser usada como coeficiente facilitador das permutas, dos intercâmbios, das trocas, da conversibilidade, enfim. Nunca, porém, em hipótese alguma, como reserva de valor, na base do “eu quero ganhar dinheiro para poder comprar mais dinheiro”. Melhor decodificando: da mesma forma que não se come dólares, euros ou reais, claramente, então, perceber qualquer moeda, no contexto que for, como mercadoria ou serviço, é inverter a ordem natural. É desamparar a fundamentação exclusiva de sua essência, haja vista que a moeda não é e nunca foi ou será o objetivo do sistema econômico. A moeda é meio, jamais finalidade.

Paul Robin Krugman, que é professor de economia e assuntos internacionais na Universidade de Princeton, medalha John Bates Clark pela American Economic Association em 1991, Nobel de Economia em 2008, membro do Grupo dos Trinta do Corpo Econômico Internacional – o G-30 – colunista do The New York Times e que, dentre mais de vinte títulos, é autor de “International Economics: Theory and Policy”, um texto básico para o estudo da economia internacional, em recente artigo defendeu a estatização dos bancos americanos sob a alegação de que “… são bancos-zumbis, incapazes de suprir o crédito de que a economia necessita…”, “… os fundos necessários para pôr esses bancos de volta aos trilhos ultrapassariam em muito o valor atual dessas instituições”.

Por sua vez, Joseph Stiglitz – em 1999 demitido do Banco Mundial a pedido de Larry Sammers, o secretário do tesouro americano que orquestrou uma excomunhão pública porque ele havia expressado seu primeiro desacordo diante da globalização “à moda” daquela instituição – Premio Nobel de Economia em 2001, pertencente à chamada corrente neokeynesiana e que vem desenvolvendo estudos que tem contribuido para o surgimento de uma subcorrente de pensamento denominada neodesenvolvimentista, avalia que o atual momento do primeiro mundo representa o desmoronamento dos alicerces da ideologia dos mercados livres e da liberalização financeira, uma vez que, justamente as organizações que por isso se distinguiam, foram as primeiras a se lançarem ao abrigo das asas do Estado.

“As instituições financeiras foram capazes de pilhar os correntistas devido à falta de concorrência… Não podemos nos ver em situações em que uma empresa é muito grande para falir… A crise de Wall Street é para o fundamentalismo de mercado o que a queda do muro de Berlim representou para o comunismo. Ela diz ao mundo que este modo de organização econômica é insustentável… Há um tempo nos disseram que estava tudo bem. Seis meses depois que a economia estava melhorando. Agora, que o paciente precisa de uma grande transfusão. Mas o que todo mundo vê mesmo é que o enfermo padece de uma dificilmente estancável hemorragia interna…”. Concomitantemente, Stiglitz também faz defesa incisiva relativamente à criação de uma moeda global a fim de evitar os tradicionais e muito nossos conhecidos problemas decorrentes do uso do dólar norteamericano.

Em presença de todo esse atual contexto, a China, que acasula reservas de 1,5 trilhão – as maiores do mundo, não obstante o progressivo estágio de esfarelamento daquele tesouro – começa a dar sinais de acentuado desconforto em relação ao atrelamento de seus ativos internacionais a um padrão monetário irremediavelmente mambembe. Da mesma forma, também os países árabes exportadores de petróleo. Ao mesmo tempo, as nações emergentes não aspiram submergir às atmosteras que já foram vencidas à custa de diuturnos e árduos exercícios de descompressão. A conclusão, portanto, é manifesta: o balizamento das relações econômicas internacionais não pode continuar a reboque de uma moeda desgovernada, sem freio, ladeira abaixo.

De toda sorte, paciente leitor, o mundo não acabou. O que extertora são as leoninas fundamentações filosóficas que sempre balizaram os procedimentos dos Estados hegemônicos ao longo de toda a jornada escrita do Homem. O que não tem mais lugar é a conduta predatória das economias mais desenvolvidas relativamente às mais acanhadas. O que se encerra é o sinistro ciclo de repasse dos insucessos das nações controladoras da poupança mundial para as que, em momento algum, sequer foram chamadas a ajuizarem opinião.

Basicamente, o foco das crises precedentes sempre esteve vinculado ao excesso ou à escassez de produção e a alguns periféricos, como o controle de preços, a proibição de importações ou o subsídio a elas. A questão, no entanto, agora é outra: como lidar com os equívocos de um liberalismo tratado com descabida tolerância e que, a quarenta mil pés de altitude, perdeu comando e entrou em incontrolada estolagem?

Um pouco antes da virada do milênio a América começou a enunciar inquestionáveis sinais de que algo censurável se infiltrara em seu sistema financeiro atrelando-o, completamente, às oscilações especulativas das bolsas de valores: o capital volátil atropelou o investimento produtivo determinando a busca alucinada de um lucro que se colocava acima de tudo e de todos. Somente em 2002, esse cassino global movimentou algo em torno de 1 quatrilhão e 78 trilhões – continuamos, sempre, em moeda podre – contra cerca de 70 trilhões na economia real. As lideranças do primeiro mundo preferiram fingirem-se de mortas. Ou com mais exatidão: optaram por vestirem-se com as melhores roupas de domingo e adentraram nessa festa pela porta da frente, pisando em macios tapetes cor de sangue.

É, portanto, chegada a hora da implementação de um padrão monetário inacessível às especulações de mercado, imune a qualquer corrosão inflacionária, indiferente às pontuais necessidades desse ou daquele país, refratário às ingerências políticas que apenas privilegiam o “bom senso” das nações mais poderosas e, fundamentalmente, onde reserva de valor nada mais signifique que o efetivo, real e palpável momento de uma determinada economia face à quadratura em que estiver sendo analisada. É chegada a hora da separação do joio do trigo: a cada qual pelo seu efetivo merecimento.

Qualquer ordenamento de poder só encontra justificativa no bem comum,
na implementação de uma ordem social justa. Dessa forma, o poder não deverá, nunca, servir para proteger os interesses de um grupo em detrimento do de outros.

Karol Jósef Wojtyla

Todas as ocasiões em que as teses das “moedas sem face” foram levantadas, quer por John Maynard Keynes em 1943 quer no final dos anos sessenta por Jacques Rueff ou por Josef Stiglitz no artigo publicado em janeiro de 2007 – “O mundo está hoje muito mais globalizado que então… A necessidade da reforma é ainda maior… O que está claro é que os dias da reserva em dólar estão contados… O mundo precisa de um sistema financeiro global melhor… A instabilidade está instalada: à medida que mais e mais dólares fiquem em mãos estrangeiras como reserva, torna-se praticamente inevitável que a confiança no dólar desapareça… A questão não está em saber se tal irá acontecer, mas quando… Com algum esforço poderíamos adaptar as idéias de Keynes à realidade atual… Retomaremos essas questões antes ou depois da próxima crise?…”- em nosso ajuizamento pecaram por continuarem insistindo no padrão-ouro como lastro garantidor. E isso, convenhamos, nada mais significa que colocar uma carroceria nova sobre um chassi pré-existente e que, sabidamente, criou mais problemas que soluções.

Nossa proposta, então, é a de que seja desenvolvida uma moeda virtual-conceitual – o criterium ou o conceitum – desde já alertando para o fato da escolha do nome muito pouco representar, uma vez que não se trata do lançamento de um novo produto de consumo, mas sim do estabelecimento de uma unidade agregadora de parâmetros com características de intangibilidade, não podendo, portanto, ser manuseada ou trancafiada em cofres fortes. Ou seja, com a função reserva de valor tradicional absolutamente inibida. Então, e para evitarmos demonstrar preferência, ou mesmo firmar posição relativamente à uma discussão burocrática e completamente oca – afinal, a eleição desse nome é mera perfumaria – a partir de então nos referiremos a ela como criterium-conceitum. Isto esclarecido, continuamos.

Estabelecidos os percentuais dos fatores da RVCS – Reserva de Valor para Crescimento Sustentado – que é o que dá consistência e lastro à esse novo mecanismo cambial, ao término de sua implantação serão banidas das relações das trocas internacionais quaisquer outras moedas territoriais que passarão a circular, especificamente, como medida de valor nos limites jurisdicionais das nações as quais estejam a serviço. Esse lastro será composto por coeficientes que traduzam o estágio do empenho de cada país frente os contemporâneos e impostergáveis desafios da moderna e irreversível transformação sócio-moral-cultural planetária.

Dentre outros, computando pontos favoráveis ou contrários, destacamos a abrangência do comprometimento com a rejeição da guerra, o alcance do envolvimento com a preservação ambiental, com a pesquisa de matrizes energéticas alternativas, com a disseminação do conhecimento intra e extrafronteiriço, com investimentos em inovação, com a solidariedade em debelar a fome mesmo que fora de sua jurisdição territorial, com a implementação de programas de inclusão digital, com o desenvolvimento de estudos que visem expandir a qualidade do conceito habitacional de massa e com o financiamento de pesquisas em prol da melhoria da saúde.

Também os coeficientes que hoje, pelo menos em tese, deveriam estar blindando o valor de qualquer moeda, comporiam este balaio conceitual: a produtividade industrial, a liquidez bancária, a idoneidade mercantil, o percentual de empregabilidade, a capacidade de autofinanciamento, a abrangência do mercado interno, o tamanho do PIB e o nível de renda per capita, seriam alguns deles.
Obviamente que outros parâmetros, tudo fruto dos debates que contemplarão a participação das nações dos quatro cantos do planeta – e não mais de apenas meia dúzia de oito ou dez G’s – enriqueceriam sobremaneira a proposta.

Assim sendo, frente a esse cenário, na mesma medida que um país possa ganhar pontos por uma produção vigorosa, parte deles pode desaparecer a débito da não contemplação do respeito por determinados princípios ecológicos. Na mesma linha, uma renda per capita pouco expressiva perde parte de sua dimensão negativa quando implementados investimentos voltados para o aprimoramento acadêmico em todos os níveis. Melhor explicitando: a reserva de valor deixa de ser representada por pedaços de papeis ou de metais e desloca-se para a efetiva capacidade de ajuste de cada uma das nações em cada um dos itens estabelecidos na RVCS.

Concludentemente, então: a reserva de valor, que hoje nada mais significa que um sorvedouro de recursos que ficam intocados em stand by sem qualquer vocação produtiva – apenas garantindo compromissos rotineiros do comércio internacional, demonstrando capacidade de pagamento aos parceiros econômicos ou mesmo a espera de uma possível crise – desaparecerá. Em seu lugar, passa a viger a RVCS. As nações passam a ser qualificadas, unicamente, pela abrangência de seus desempenhos internos. A derrocada de uma passa a significar exatamente isso mesmo: a derrocada dela mesma, a queda de uma só. Ou seja, os coletivos nacionais passam a usufruir, especificamente, dos respectivos resultados que conseguem gerar. Positivos ou contrários.

A integridade desse novo ordenamento será escoltada por um “G” bastante abrangente – 30, 40, 50 – especificamente constituído para tal finalidade que, acompanhará, nação a nação, o enquadramento de cada uma delas em cada um dos quesitos previamente definidos e claramente minudenciados na RVCS, a fim de mensalmente, bimensalmente, trimestralmente, semestralmente ou anualmente, atribuir valor de conversão a cada uma das moedas nacionais frente à mundial.

De forma alguma esse plantel de especialistas exercerá papel de polícia, limitando-se a informar sobre as causas que levaram àquelas pontuações específicas – sustentando, enfraquecendo ou valorizando os respectivos status relativamente ao criterium-conceitum – e sobre as projeções de evolução daquele cenário, positivas ou negativas.

Também nesse organismo internacional se concentrarão diversos técnicos que, em missões itinerantes, atenderão os governos que solicitarem apoio para o estabelecimento de planos diretores que contemplem metas plausíveis de crescimento sustentado sem, no entanto, exercerem qualquer papel coercitivo na implementação das providências sugeridas. Cabe a cada Estado conversar internamente sobre a direção que pretenda seguir: a cada ação a sua recompensa, seja ela a almejada ou não.

Entenda-se que nenhuma nação pode comprar criterium-conceitum. A única forma de obtê-lo é através do comércio internacional, ou seja, “fabricando-o” no ambiente domiciliar e mantendo sua boa cotação através de um adequado desempenho na RVCS. Extinguem-se, portanto, as aflitivas cotações diárias, ou mesmo horárias, que hoje calculam o valor da cesta de moedas frente o dólar. O criterium-conceitum, como toda moeda deveria ser, não é serviço ou bem de consumo. É mecanismo de troca. Meramente isso.

Se você acha que deve existir uma forma de fazer melhor, mãos à obra:
descubra-a.

Thomas Edson

Definidos os parâmetros que sustentarão o novo dinheiro mundial, sua implantação seguirá a mesma filosofia que foi adotada para a transformação do cruzeiro real em real, ou seja, valendo-se de um fator progressivo de conversibilidade do dólar para o criterium-conceitum, de forma a considerar as atuais reservas existentes em cada nação.

Concomitantemente, começam a ser avaliados os respectivos desempenhos de cada uma das economias nacionais, relativamente à capacidade de adaptação ao novo arquétipo monetário, a RVCS. Esse processo deve perdurar entre 12 e 18 meses. Portanto, em no máximo um ano e meio, com o ciclo do processo de conversão finalizado, as moedas territoriais restringem-se, definitivamente, aos seus respectivos espaços jurisdicionais e o criterium-conceitum começa a balizar toda e qualquer operação de troca em âmbito planetário.

Na prática isso significa que, já mesmo durante a fase de implantação, as atuais reservas brasileiras, algo em torno de 200 bilhões, podem, paulatinamente, irem se transformando em maciços investimentos nas prioridades internas, uma vez que o status frente à nova moeda será definido, dentre outros coeficientes, pela capacidade de autofinanciamento e não mais pela quantidade de dólares que cada nação, pontualmente, tenha em seus cofres. A nova moeda, como já dissemos, não é tangível. É virtual-conceitual. É moeda escriturada.

No caso da China, iniciado o processo de conversibilidade, de pronto – e sem absolutamente alterar seu desempenho em relação ao balanço de pagamentos – aquele país poderá dispor de algo em torno de 500 bilhões para injetar, por exemplo, em processos corretivos da poluição e assim melhorar consideravelmente sua visibilidade nesse quesito que, com toda certeza, terá um peso bastante expressivo no escopo da nova moeda. Aliás, e haja vista nossa própria pouca intimidade com a operacionalização do novo padrão monetário, quase passou-nos despercebido que aquele país ganhará pontos em duas frentes: por dizer não à poluição e pela capacidade de autofinanciamento.

É para ficar bastante claro que o que hoje for considerado reserva de valor em stand by, 200 bilhões no Brasil e 1,5 trilhão na China, por exemplo, se intocadas até o término da conversão, contabilmente, continuarão disponibilizadas para os respectivos países, já, porém, em criterium-conceitum. Ocorre, no entanto, que em função da mais que traduzida quebra da economia real americana esta não seria a escolha acertada haja vista que, durante a consolidação do processo, dia-a-dia o dólar refletirá perda de valor aquisitivo.

Portanto, se desde o princípio do período de conversibilidade essas reservas começarem a ser utilizadas para suprir as deficiências de adaptação aos parâmetros dos coeficientes garantidores do “novo dinheiro” – a RVCS – os países aumentarão consideravelmente suas chances de as fermentarem e, consequentemente, de fazerem-nas valer mais do que representavam em dólar no início do processo, isso, obviamente, variando ao sabor dos resultados qualitativos dos investimentos aportados em suas respectivas economias internas.

A pontuação máxima que cada moeda territorial poderá conseguir será de 100% do somatório dos pesos atribuídos aos índices previamente definidos na RVCS. Assim sendo, teremos a moeda X valendo 30% de 1 criterium-conceitum, a Y valendo 78% e a Z 13%, por exemplo. Melhorá-las no ranking dependerá, exclusivamente, da atuação interna de cada nação frente aos fatores estabelecidos como sendo as metas universais a serem perseguidas.

Em presença dessa conjuntura o euro deixa de existir como moeda única e em seu lugar surge o euro italiano, o euro tcheco, o euro francês, o euro romeno, o euro holandês, o euro letão e, assim, sucessivamente. Não dá para estabelecer comparação entre as economias polonesa e a alemã, por exemplo. Nem ignorar que os chamados “Pigs” – sigla criada em inglês para referir-se a Portugal, Ireland, Greece e Spain – são países fortemente atingidos pela crise e que demandam urgente assistência de Bruxelas. De toda a sorte, o acrograma criado para caracterizá-los, se não é infeliz, excludente, preconceituoso o é, no mínimo, extremamente deselegante. São muito mais vítimas que propriamente artífices desse estado de falência sociomoral primeiro-mundista.

No caso da Hungria, para citar apenas um caso, a dívida externa atinge 100% do PIB e os recursos necessários para financiar o equilíbrio das contas externas em 2009 giram em torno de 30% dele. Ou seja, não há no mundo atual quem se proponha a bancar esse risco. Se houvesse, surgiria um segundo e definitivo óbice: o dinheiro do primeiro mundo acabou. Prova disso é que o apelo húngaro para que a União Européia abonasse um grande plano de resgate para o Leste foi rejeitado pelo eco de um sonoro não da Alemanha em Bruxelas. Resumindo a ópera: foram abatidos em pleno voo de saída do regime comunista. Um analista americano atualizou em poucas linhas a situação daquele bloco econômico: “A Europa Central e a Oriental se tornaram a subprime da União Européia”.

Não são os grandes planos que dão certo. São os pequenos detalhes.
Stephen Kanitz

Operacionalmente, a nova moeda pouco se difere dos padrões que vigem hoje. O como “fazer” criteriuns-conceituns, por exemplo, continua vinculado às operações de importação/exportação, ou seja, exatamente como hoje são “feitas” as divisas em dólar. O que se altera, como já vimos, é o modo de cálculo do efetivo valor de cada uma das moedas nacionais frente a esse novo protótipo que desvincula-se, por inteiro, das questões conjunturais da atual “nação-padrão”, no caso a América, agregando, inclusive, forte blindagem, de forma a impedir que aquele país continue repassando sua inflação para o planeta, que compre petróleo com o dinheiro do resto do mundo ou atrele ao seu mercado megaespeculativo – compulsivo inflador de bolhas – os esforços produtivos das demais nações.

Aclarando: qualquer operação internacional será feita via a transformação da moeda do comprador em criteriuns-conceituns que serão, imediatamente, disponibilizados em moeda local no território do país vendedor. O contato entre uma moeda e outra é fruto de uma contabilidade virtual. E o valor, tanto de uma quanto de outra não dependerá mais das conjunturas, quer do que restou da economia americana quer do que restou da do resto do primeiro mundo, mas sim de seus específicos desempenhos internos frente aos parâmetros da RVCS.

É claro que um investidor japonês, por exemplo, poderá continuar aplicando seus recursos pessoais nas bolsas de Nova Iorque, de Londres ou de São Paulo. E sem dúvida que isso continuará acontecendo. Só que, como é operação que tem como ponta aplicadora o espaço territorial Japonês e como ponta tomadora o dos Estados Unidos, a única forma de operacionalizar essa transação é via yen que, contabilizado em criterium-conceitum, aterriza por lá já em dólares estadunidenses.

Não há a menor hipótese de esse investidor fazer algum tipo de operação extrafronteiriça, relativamente ao que for, utilizando-se de alguma outra moeda que não seja a da origem territorial do recurso financeiro. Uma futura desaplicação da totalidade ou de parte desse quantitativo, obviamente, seguirá a mesma rota: dólar estadunidense/criterium-conceitum/yen. Da mesma forma, inexiste a hipótese do país destinatário da remessa não receber o valor a ser creditado em outra moeda que não a sua própria. O dólar estadunidense circula exclusiva e especificamente em território americano. Idem para o yen, relativamente às ilhas japonesas.

Ninguém, seja pessoa física ou jurídica, pode dispor, dentro dos territórios em que atuem, de outro tipo de moeda senão a que a daquele próprio país. Cremos que isto já ficou muito claro. É óbvio, no entanto, que o citado investidor japonês – ou qualquer outra pessoa física ou jurídica – poderá ter uma conta corrente, em seu nome ou no nome de alguma empresa, em dólares americanos, canadenses ou em pesos mexicano, desde que estejam depositados, especificamente, em alguma instituição financeira baseada no território dessas nações.

Evoluindo um pouco mais: se além do Japão, dos Estados Unidos, do Canadá e do México esse investidor fictício também tiver conta corrente em um banco no território francês e se predispuser a aplicar na Alemanha, o processo será exatamente o mesmo: euro francês/criterium-conceitum/euro alemão. No caso do turista comum, assim como já acontece hoje, a utilização do cartão de crédito e de saque é a melhor pedida haja vista que a única coisa que muda é o fator de conversibilidade, que deixa de ser o dólar dando lugar ao criterium-conceitum. Não há solução de continuidade. Os mecanismos operacionais existentes, se aplicam, todos, ao criterium-conceitum.

Ratificando, o criterium-conceitum tem como finalidade precípua duas funções primordiais: erradicar do consciente coletivo planetário a noção de que moeda é algo diferente que um mero padrão de conversão e de definir, territorialmente, o valor de cada uma delas, que será determinado em função das análises dos aproveitamentos nos deveres de casa que deverão ser aprontados, especificamente, por cada país de per si. No entanto, se for para melhorar a nota, nada impedirá de colar dos que estiverem liderando as notas da turma. Ou por outra, é aconselhável que seja assim.

Evite a pressa antes do tempo e a lentidão ante a oportunidade.
provérbio árabe

Nossa proposta, como já percebeu o culto leitor, é embrionária. É imperfeita. É conceitual. Longe de nós pretendermos estar esgotando o assunto. No entanto urge que comecemos, seriamente, a pensar na criação de uma moeda sem a face e os cacoetes de qualquer nação. Como está é injusto. Como está é tortuoso. Como está é censurável. Como está é desonesto.

Tipicamente no caso brasileiro, deflagrada a crise em início de outubro, o dólar estadunidense variava por aqui no patamar de 1,50 real. Desnudada a economia americana – todo o sistema bancário no vermelho, toda a indústria automobilística quebrada, todo o comércio sem ter para quem vender – em menos de um mês o dólar quase dobrou seu valor por aqui. E isso não é natural. Isso não é o esperado. Isso não é, absolutamente, plausível.

O Brasil já participa, diretamente, em mais de um órgão chave das finanças internacionais: do Comitê de Basiléia de Supervisão Bancária, que tem por objetivo reforçar globalmente os padrões bancários que, até então, eram controlados, exclusivamente, pelos países ditos desenvolvidos, do FEF – Fórum de Estabilidade Financeira e do Comitê Técnico da Organização Internacional das Comissões de Valores – mais conhecido pela sigla inglesa IOSCO – que é quem estabelece os critérios para a regulação dos principais mercados internacionais.

A entrada do Brasil nesses organismos, juntamente com outros emergentes, não apenas colocou peso como desbancou o alquebrado G-8, até então o diretório econômico planetário, redefinindo toda a hierarquia de poder e contribuindo, sobremaneira, para a solidificação do G-20 como o centro das articulações econômicas globais.

Com o G-20 tomando parte, diretamente, dos processos de decisões do sistema financeiro global, na prática isso nada mais significa que já está em pleno andamento uma nova ordem internacional, muito embora sejam muito poucos os que disso consigam se aperceber. Principalmente aqui em nosso país. E com o irreversível alargamento da influência dos principais emergentes – Brasil, Rússia, Índia, China, Austrália, Coréia e México – essa progressão, inevitavelmente, os arrastará para uma participação bem mais expressiva no Banco Mundial e no próprio FMI.

Em dois de abril de 2009, em menos de um mês, portanto, acontece mais uma reunião do G-20 em Londres. Em nossa percepção, o tópico dominante versará sobre uma regulamentação consistente para o mercado financeiro internacional, incluindo-se aí as chamadas zonas de paraísos fiscais e a revisão da própria conceituação filosófica de todo o sistema bancário, mais notadamente em relação aos da Suíça, Áustria e Luxemburgo, velhos conhecidos como os grandes estimuladores da evasão dos impostos que, obviamente, não lhes pertencem. E enquanto América e o Reino Unido unem forças em defesa dos estímulos fiscais como mola mestra para a recuperação econômica, Alemanha e França contrapõem-se e exigem maior regulação do sistema financeiro internacional.

De toda forma, o planeta Terra cansou de acalentar as ancestrais mesmices e se prepara para dar início a um desenvolvimento em bases sociomorais bem mais consistentes que as que vinham sendo exercitadas pelas, até então, nações líderes. Portanto, não há hora, lugar e momento mais adequado para que a idéia da moeda universal seja reapresentada, até porque seria um ótimo tema central para o G-20 previsto para o próximo outubro.

E se é assim, parceiro leitor, por que não seria ela apresentada, já mesmo agora em abril, pela própria delegação brasileira que nos estará representando em Londres?

O maior risco contemporâneo é o de não fazermos nada
enquanto todo o resto está mudando rapidamente.

Walter B. Wriston





As redes nasceram em mim no encontro da sensorialidade com a cooperação

27 03 2009

Até dez anos atrás, meu destino parecia totalmente voltado para as artes. Pintora desde os 8, primeira encomenda de quadro aos 12, primeira exposição aos 15, reconhecimento da mídia aos 19. Adolescente eu sempre respondi que seria artista quando crescesse. Entretanto, até os 18 ignorei a importância de duas outras artes latentes em mim, que eu praticava desde os 6 e 15, respectivamente, e que com 19 se tornaram uma necessidade: a dança e a música.
Ao contrário da estrada reta que foi a pintura em minha vida, a dança foi um verdadeiro labirinto. Balé clássico, moderno, jazz; danças árabe, indiana, grega, russa, espanholas; técnicas populares, sagradas, terapêuticas; de tudo eu experimentava. Chegando até a fronteira das práticas meditativas de Chi-Kun e Tai-Chi-Chuan, e a arte marcial do Kung Fu. E assim sempre quis conhecer algo mais sobre o movimento do corpo humano. Dessa forma, não priorizando a dança na minha carreira, mas sempre mantendo-a presente, eu acabei entrando cedo na adolescência e desde os 9 anos saia em festinhas, onde passava cerca de 8 horas dançando sem parar. Um hábito que tenho orgulho de manter vivo, quando sobra tempo para o laser.
Já a música, foi quase que passada pelo sangue, pela minha família musical, e pela maioria de meus amigos, que sempre vieram a ser músicos, onde quer que eu fosse. Apesar dessas oportunidades, também aí nunca consegui adquirir a disciplina de aprender bem um instrumento. E assim, por comodidade, escolhi a voz. Ao longo desses 15 anos, foram variados os convites para integrar bandas, de rock, de samba, de bossa, forró ou mpb. Mas eu sentia também com a música, sempre a fome de algo mais, que não cabia em um só gênero musical. E assim, passei os últimos 10 anos pesquisando, de forma autodidata, as músicas tradicionais de todos os continentes, e alguma coisa de física acústica. Me concentrando de quase três anos para cá em técnicas vocais antigas.
A verdade é que eu me encontrei nas artes, quando me encontrei na dança e na música. Foi descobrindo uma forma de criar que correspondia à minha essência: a improvisação. Junto com a improvisação, que descobri quando caí de para-quedas, em um workshop de dança contemporânea, eu conheci a arte da performance, que vem a ser hoje, o meu xodó, já há 10 anos, no campo artístico.
A relação da Arte com as Redes é engraçada em minha vida, porque mudou totalmente o destino que eu tinha imaginado para minha vida. E tudo foi muito rápido. Aos 20 anos, enquanto eu me descobria nas artes, eu morava na França, onde estive por 7 anos, estudando e buscava formas de ganhar dinheiro para viajar pela Europa, eu comecei a trabalhar como burro-de-carga na produção de projetos culturais e execução de campanhas de marketing da pior qualidade, entre outros. Me aproximei de uma associação que fomentava a difusão da cultura brasileira na França e participei da fundação de uma outra, similar (porém unicamente voltada para cinema e televisão), com a qual trabalhei como correspondente mais tarde ao voltar ao Brasil, por 3 anos. E assim, decidi fazer um estágio na melhor rede de televisão que já conheci, a ARTE, franco-alemã, e patrocinada na época por apenas um único sponsor, uma marca de relógio suíço. Caí na produção audiovisual e comecei a fazer vídeos na faculdade em que estudava. Pronto, eu havia me apaixonado pela tecnologia. E durante um ano ela namorou com a dança, enquanto eu levava a câmera emprestada da faculdade para filmar dançando nas jam sessions do centro de dança contemporânea de minha cidade.
As Redes nasceram em mim no dia em que escolhi integrar uma matéria de prática de pesquisa que misturava, dança, vídeo, som e internet. Estávamos em setembro de 1999 e eu, junto com 20 outras pessoas batizamos o coletivo ESP, que já realizou 12 projetos diferentes desde então, em rede, e com diversos países. Através do Coletivo ESP eu tive a oportunidade de fazer workshops com os performers franceses mais importantes da última geração Fluxus, e conheci Kathelin Gray, que vinha a ser a pessoa responsável pelas relações humanas dentro do importantíssimo projeto Biosfera 2. Lembram dele? E neste ano entendi de forma extremamente sensorial o primeiro conceito importante em Redes: Sinergia.
Neste projeto aprendemos a criar dispositivos de baixa a média tecnologia, com ou sem uso de internet, que permitiam a interação audiovisual entre espaços distantes geograficamente, em/sem tempo real. Um momento lindo e que apesar de eu ter voltado para o brasil em 2001, não acabou. Colaborando virtualmente com o Coletivo ESP, realizei ainda 2 performances, uma ação internacional (Brasil, França, Argentina, Macedônia e Eslovênia) contra a escravidão tecnológica em 2002, e outra unicamente entre Brasil e França, em 2003. Dessa forma entendi um segundo conceito importante para mim: Telepresença.
Em 2002, foi o ano em que participei de um documentário sobre o Fórum Social Mundial e que abre uma paréntese interessante. Em meio a idealistas de todo o planeta, reinvindicando igualdade e justiça social, estava um monge vestido de laranja meditando sozinho no meio do parque, todos os dias. Fomos lá e perguntamos a ele: “porque em meio a tanta gente clamando por uma nova sociedade, você fica aqui sozinho em silêncio?”. Ele respondeu: “uma nova sociedade só será possível quando o homem aprender a ficar em paz consigo mesmo. Para mudar o mundo precisa-se começar de dentro. Eu estou ilustrando isso”.
Em 2003, eu já estava no Brasil há dois anos e a produção tinha se tornado uma atividade mais importante em minha vida. Comecei a criar projetos socio-culturais, como no passado pintava quadros, e a procurar captadores de recursos para eles, já que afinal eu era “apenas uma artista”. Fui indicada para uma pessoa do governo estadual, que disse que precisava que eu escrevesse um projeto de cooperação para o Brasil e a França. Este projeto deveria reunir uma universidade, alguns órgãos governamentais e empresas para que colaborassem em torno de um site. Ele disse que deveria ser “como uma autarquia, mas menos burocrático e mais democrático que isso”. Eu acreditei, e levei 3 meses pesquisando sobre formas de chamar isso. Eu enfim descobria as Redes!
O processo de elaboração do plano de negócios desta Rede foi interessante, porque Redes não costumam ter forma jurídica e apesar do projeto ser um site acabou sendo isso o que me pediram. Não sei quais eram as intenções naquela época, mas isso acabou sendo o que reforçou o projeto e permitiu que por fim acabasse se realizando sem padrinhos. E hoje há 3 anos se sustenta unicamente com esforços dos associados, como é possível de se fazer.
Em 2004 e 2005, enquanto eu entrevistava todos os interessados nesta futura Rede, quanto às suas estruturas jurídicas de decisão e cooperação, para fazer algo efetivamente democrático, consegui compreender o terceiro conceito que considero importante quanto a este tema: Identidade. E acredito que o resultado do projeto tenha ficado bom, pois passei a ser indicada para ajudar em projetos internacionais de cooperação desde então. Além da França, sendo chamada para iniciativas do Brasil com a Espanha e com a Itália, e da França com a América do Sul.
Por fim, a formação jurídica da tal Rede veio a ser uma associação, que ao meu ver, no Brasil, é a única forma passível de efetivamente atuar entre os 3 setores. Esta crença é reforçada pelo fato de eu colaborar com outra associação francesa que é apoiada por duas Redes Internacionais importantes, uma da Unesco e outra das Nações Unidas. Uma pequena associação que permitiu que duas Cátedras da Unesco fossem criadas em países diferentes e já organizou Grupos de Trabalho entre parceiros de diversos setores, ao longo de 10 anos.

Mas as Redes não foram na minha experiência apenas um mar de rosas e são os seus desafios que me trazem aqui. Na verdade o que aprendi até aqui com as Redes é que existe uma proporção entre a horizontalidade de decisão e o esforço de mobilização nelas. Com efeito, observo que quanto mais virtual a rede, ao contrário do que dizem as teorias, menos trocas efetivamente acontecem. Apesar de serem de altíssimo nível na medida em que a telepresença se manifesta por mais variados canais. E por outro lado, quanto maior a capacidade de mobilização que a Rede trás, embora mais resultados concretos sejam observados, mais ocorre a tendência humana de concentrar informação e poder.
Por isso, se falo mais sobre arte que sobre gestão ou sociedade neste post, é porque minha contribuição no tema Redes Sociais é resultante da sorte de ter tido uma experiência sensorial de interação artística, que é a forma mais prazerosa de vivenciar a rede; e o que pude vivenciar na área de cooperação internacional, que é a mais complicada e lenta forma de constituir rede. Dois opostos complementares.

Volto ao monge e me digo que nada é por acaso. Que quem se interessa por Redes tem uma missão social. Porque a Sociedade hoje é Rede. Mas se “é preciso começar por si mesmo”, a única coisa que meus 30 aninhos permitem que eu diga, é que não são as idéias e sim os sentidos que fomentam a cooperação em rede.
Um último exemplo engraçado. Leio livros do Pierre Lévy há dez anos, desde que entrei no coletivo ESP. Desde 2006, vendo estudando sobre administração, telepresença, redes, cooperação e ele sempre aparece em algum artigo que eu esteja escrevendo. Em 2007, cheguei a vê-lo em uma palestra que deu, organizada pela Rede São Paulo. Fiz uma pergunta, ele respondeu, e nada mais aconteceu. Hoje faço parte de seus contatos em uma ferramenta de relacionamento não por causa de minha pergunta, ou pelo facínio por alguns de seus livros, tão pouco pelos amigos que me levaram até aquela palestra naquele dia, que de alguma forma estavam envolvidos com o evento também, tão pouco pelos trabalhos que faço em redes sociais, ou qualquer projeto em que ele hoje esteja envolvido. Nosso vínculo hoje vem do fato que temos um amigo em comum, que vem a ser o curador do primeiro festival que o coletivo ESP participou, no ano 2000. Se hoje me pedissem para descrever a forma de uma rede, eu responderia: um ciclo.

A minha contribuição na Escola de Redes, como meu caminho me mostrou, é apontar direções para os mistérios da interação cultural, que a rede traz.

Minhas referências, das quais falarei mais detalhadamente ao longo do ano (agora exclusivamente concentradas no mestrado) são Capra, Maturana, Lévy, Castels, Barabási, Watts, e a interação que faço com os trabalhos de Tuomela, Desrosche, Moles, Bohm, Khrishnamurti, Bourdieu, DeMasi, e Checkland.
No Brasil, costumo indicar o Augusto de Franco como referência, pelo fato de que incorpora o lado “social” das redes com a nossa visão cultural, além de escrever de forma acessível, e com espírito de quem ama estar sempre aprendendo e não teme compartilhar seus conhecimentos.





Crise ou Oportunidade? uma questão de entendimento

17 03 2009

Artigo do Geraldo Ferreira De Araujo Filho – consultor de estratégias corporativas, palestrante, professor e autor dos livros “A Criatividade Corporativa na Era dos Resultados” e
“Empreendedorismo Criativo, a nova dimensão da empregabilidade” – e além de tudo 1º Secretário da Associação Brasil França

“Não há história consciente sem a consciência da história”
Nelson Mello e Souza

2008, e não 2000, é o ano que, efetivamente, entra para a História como o marco do transpor dos portais do terceiro milênio da era cristã.

É a partir de então que começam as profundas e irreversíveis transformações que ao longo dos últimos dez séculos decorridos vinham sendo aguardadas com um misto de esperança, descrença e, tanto em uma hipótese quanto em outra – com maior ou menor intensidade – envoltas por um ancestral temor: “de que forma a Terra acabará na virada do milênio, em água ou em fogo?”

De toda sorte chegamos, agora, ao marco zero de um porvir inédito. Há em curso uma fortíssima sucessão de radicais mudanças de conceitos, parâmetros e, fundamentalmente, de percepções filosóficas. Há um perfume de inovação se espalhando com incrível rapidez por todo o orbe e que, já há algum tempo, é parte integrante do quotidiano dos que possuem olfato mais apurado.

Alvin Toffler, Steve Jobs, Domenico De Masi, Peter Drucker, Francisco Gomes de Matos, Pietro Ubaldi, William Gates, Leif Edvinsson, Pierre Lévy e Nelson Mello e Sousa, são alguns desses incontestes perfumistas que, cada qual com sua fórmula aromática específica, desde há muito vêm borrifando a atmosfera planetária, tornando-a mais salubre.

Um mundo muito diferente de tudo que já foi visto começa a emergir das cinzas de uma civilização que contabiliza registros de mais de seis mil anos de equívocos e que, agora, em seu estertor derradeiro, esgota-se em si mesma, vítima da incompreensão de que a vaidade é o mais sedutor e letal de todos os pecados.

Vamos então a um retrospecto na busca de determinados acontecimentos que marcaram o último século desse período de vários e vários milênios e que, mesmo esvaindo os últimos grãos de suas areias pela incorruptível ampulheta do Tempo – afinal ele é o único, dentre todas as demais dimensões, que não nos faz concessões – bem ou mal sedimentou, não mais agora importando se através de inúmeros desacertos, terreno propício para a construção de um futuro que se posicionará de maneira muito melhor estruturada, relativamente aos atuais padrões sócio-morais planetários.

E isso já está acontecendo. Ou seja, finalmente, chegamos ao começo.

Podemos facilmente perdoar uma criança que tem medo do escuro, porque,
afinal, a real tragédia da vida é quando um homem tem medo da luz.
Platão

No segundo semestre de 2008 aflorou a maior crise econômico-financeira de toda a história escrita da humanidade. E isso não foi conseqüência de uma fortuitidade pontual, alvitre de alguma praga bíblica ou, simplesmente, efeito de uma imprevisível mudança de humor de algum dos deuses dos olimpos que se espalham pelos credos de todas as tribos do planeta.

Não, não foi isso não.

Ela é resultado de uma equação perversa, cuidadosamente engendrada e aplicada ao longo de mais de 50 anos pelos países do dito primeiro mundo, que, como alunos aplicados, de corpo e alma – mais de alma, até – engajaram seus talentos a serviço desse academicismo sinistro, exportando-o com royalties – vale a ressalva. Ou seja, América do Norte, União Européia e Japão são os responsáveis diretos por esse crash sem precedentes.

Porém, e acredite quem puder, essa convulsão é muitíssima oportuna e, definitivamente, saneadora de vícios arraigados em caducos entendimentos ancestrais posto que, concomitantemente, transmuda-se em clareadora dos caminhos novos que, para os mais antenados com a modernidade, nitidamente, já vêm sendo pavimentados pela argamassa de uma percepção soberana, exclusivamente voltada para a valorização das potencialidades morais do Homem.

E assim sendo, tudo o mais que dela advirá, e muito mais breve do que se possa presumir, será mera conseqüência.

“Os problemas que o mundo de hoje enfrenta,
não são suscetíveis de uma solução militarizada.”
John Fitzgerald Kennedy

William S. Cohen, ex-secretário de defesa dos Estados Unidos da América no governo de Bill Clinton, publicou em 2004 um romance cujo título em português é “Os Conspiradores”. Nele, textualmente, informa que a verba anual da defesa, a maior dentre todas as demais do orçamento americano, gira em torno de 500 bilhões de dólares anuais.

A Casa Branca, em fevereiro de 2008, confirmava: “Do total recorde de 3.1 trilhões de dólares solicitado para o próximo ano orçamentário – out/2008 – set/2009 – o Pentágono receberá 515 bilhões de dólares para suas despesas comuns, o que representa um aumento de 7,5% em relação ao orçamento de 2008 e um aumento de quase 74% se considerada a evolução de 2001 para cá”.

“Além da situação no Iraque, a Casa Branca inscreveu no orçamento regular do Pentágono 20,5 bilhões de dólares para financiar o aumento do tamanho do exército e do corpo dos marines nos cinco próximos anos. Assim, os efetivos do exército serão aumentados para 547.000 militares até 2010 e os dos marines passarão a 202.000. Essa providência agasalhou-se na alegação de que “não há como responder a eventuais ameaças em outras partes do mundo”.

Isso nada mais significa que a auto-proclamada nação-xerife avocando, uma vez mais, a responsabilidade de manter a ordem no resto do mundo. Ou melhor, o seu personalíssimo entendimento de ordem.

De toda maneira, vamos aguardar pelas ações concretas do recém eleito presidente democrata Barack Obama, que sucede ao republicano George Bush. De nossa parte, achamos que o novo presidente irá fingir-se de morto em relação ao assunto. Clinton, por exemplo, ficou 8 anos e, também, achou conveniente não se meter com a ditadura militar americana.

Já o orçamento da OTAN gira em torno de US$ 850 bilhões por ano. A Organização do Tratado do Atlântico Norte, criada em 1949 para defender a Europa de um hipotético ataque soviético, além de já ter dado assistência logística às tropas da União Africana que tentavam “pacificar” a província sudanesa de Darfur e, recentemente dispor de, pelo menos, 43 mil solados combatendo no Afeganistão (a Alemanha rejeitou um pedido de Washington para que enviasse mais tropas), em 1990 travava uma guerra dentro da própria comunidade européia, contra a Sérvia.

Ou seja, América do Norte e União Européia respondem, hoje, por algo em torno de 75% do gasto mundial com armamentos.

Na opinião de Paul Ingram, do Conselho Anglo-Norte-americano de Informação de Segurança, “seria mais produtivo se os esforços para levar estabilidade a regiões voláteis do mundo fossem canalizadas através de ferramentas civis como a diplomacia e a ajuda para o desenvolvimento”.

“Mas o problema é que, proveniente das “nações guerreiras” – Estados Unidos, França e Grã-Bretanha – há uma forte pressão para aumentar o gasto de defesa na Europa, posto que estão muito mais preocupados com a capacidade militar do que, propriamente, com a segurança. Os países europeus se equivocam ao se decidirem imitar os Estados Unidos”, complementa Ingram.

Já a militarização do Japão é restringida pelo Artigo 9º de sua Constituição, no qual renuncia ao direito de declarar guerra ou ao uso de força como meios para a resolução de disputas internacionais. De toda forma, sua despesa militar é a 4ª maior do mundo, ajustada em um orçamento de pouco menos de 50 bilhões de dólares.

Mas na mesma medida em que a Alemanha parece ter-se auto-vacinado de suas aventuras militaristas no século passado, o Japão, contrariamente, ensaia alguns sinais de querer introduzir alterações no texto constitucional redigido por Mac Arthur em 1946, que ditou uma postura eminentemente pacifista.

“Não busque por lucros desonestos.
Lucros desonestos sempre dão prejuízos.”
Hesíodo

A crise de 1929 foi resultado direto de uma superprodução industrial, ou seja, as empresas começaram a produzir acima da capacidade de absorção do mercado. Isto porque a precificação dos produtos foi irreal, tendo em vista que os salários não haviam evoluído de forma a garantir o escoamento daquela abundância.

A máxima preferida dos maus empreendedores, a lei do “ganhar, ganhar”, estava em um de seus auges históricos. Mesmo que Henry Ford, façamo-lhe justiça, anos e anos antes houvesse entendido e colocado em prática que o “ganhar sem repartir”, desde o tempo dos sumérios, registre-se, nunca funcionou.

Como conseqüência direta dessa “esperteza” – muito trabalho X precária remuneração – alguns negócios principiaram a colapsar devido à morosidade no giro do capital e as concordatas, falências e demissões começaram a fazer parte de um invariável e repetitivo cardápio, acelerando o ciclo em efeito cascata e gerando um empobrecimento populacional sem precedentes.

Os efeitos da “Grande Depressão” foram sentidos em quase todo o mundo. Porém, Alemanha, França, Itália, Inglaterra, Austrália e Canadá os vivenciaram com mais intensidade.

Na contramão da crise, no entanto, em países pouco industrializados como Argentina e Brasil, por exemplo, esse evento veio carimbado pelos dois símbolos do ideograma chinês para “crise“: “perigo” e “oportunidade”.

Foi justamente nessa quadratura que ambas as nações iniciaram a aceleração dos seus respectivos processos de industrialização.

“O segredo não é correr atrás das borboletas,
mas cuidar do jardim a fim de que elas venham até você.”
mário quintana

Em 1933, Franklin Delano Roosevelt, 32º presidente americano, que governou a América por quatro mandatos consecutivos, morrendo em abril de 1945 em plena vigência do último, lançou o New Deal, pacote de medidas econômicas que, em 1936, foram racionalizadas por Keynes em obra clássica.

O pacote econômico ajudou a minimizar a crise e os países atingidos iniciaram lentos e graduais processos de recuperação. Todavia, é importantíssimo que se assimile a cronologia: já eram passados quatro anos desde sua explosão em 1929.

Aqui pelo Brasil, os estímulos a algumas áreas, especialmente da indústria extrativa, da agroindústria, da metalurgia e da indústria de cimento foram expressivos. Em fevereiro de 1931 estabeleceu-se a obrigatoriedade da adição de álcool-motor à gasolina importada e em março foi proibida, por um prazo de três anos, a importação de máquinas destinadas a indústrias já instaladas no país e cuja produção fosse considerada excessiva.

Em junho do mesmo ano o governo autorizou o Lóide Brasileiro e a Estrada de Ferro Central do Brasil a comprarem toda a produção das companhias nacionais de mineração de carvão, determinando ainda que os importadores adquirissem no mercado nacional pelo menos 10% do que pretendessem negociar.

Em 1933, a produção industrial – que se destinava em sua quase totalidade ao mercado interno – já havia recuperado o nível de 1929 e o surgimento do algodão como segundo principal produto de exportação viria reduzir os efeitos da crise cafeeira sobre o balanço de pagamentos.

Vale a ressalva: a crise do café começou, na verdade, em 1920, e deveu-se a um ininterrupto e descontrolado aumento da safra. Para um consumo mundial de 22 milhões de sacas, o Brasil produzia vinte e um. Assim sendo, em 1929 os fazendeiros ainda estavam exportando a safra de 27.

Em Outubro de 1929 – o mês do crash em Wall Street- o Herald Tribune informava que 2/3 do café consumido no mundo inteiro era produzido em São Paulo e que, sozinho, representava 3/4 as exportações brasileiras. Ou seja, o café brasileiro nunca esteve a reboque do contexto daquela derrocada americana. Aconteceu, meramente, por falha nossa. Única e exclusivamente.

Foi também nesse período que se inaugurou a política do “pacto social”, ou seja, da colaboração entre capital e trabalho através da mediação do Estado, lançando as bases da legislação que posteriormente seria agrupada na CLT – Consolidação das Leis do Trabalho, em 1943.

Entre as principais iniciativas tomadas destacaram-se aquelas referentes à organização sindical e ao reconhecimento de várias reivindicações históricas do movimento operário anteriores à década de 30.

O New Deal tupiniquim portanto, foi “antecedente ao original americano” de 1933 e funcionou rapidamente, evitando que a crise chegasse com maior intensidade: tsunami lá, marola aqui.

“Invariavelmente,
os Estados Unidos costumam fazer a coisa certa
depois de exaurirem todas as demais alternativas.”
Winston Churchill

Na América, e apesar de todos os programas governamentais implementados, em 1940 cerca de 15% da força de trabalho continuava desempregada. Ou seja, um ano após o início do 2º grande conflito armado europeu do século passado.

Em dezembro de 1941 os japoneses, burramente, atacam Pearl Harbor e forçam a entrada dos Estados Unidos na guerra. E a partir de então, o Terceiro Eixo – Alemanha, Itália e Japão – inicia a desconstrução do sonhado “império de 1000 anos”.

Economicamente falando, a entrada da América na guerra foi extremamente interessante: a produção industrial cresceu drasticamente e as taxas de desemprego despencaram. Ou seja, extinguiram-se os efeitos da “Grande Depressão” de 1929.

Perto do final dos combates, em julho de 1944, foi subscrito pelos 45 países aliados o acordo de Bretton Woods com o objetivo reger a política econômica mundial do pós-guerra. Em linhas gerais, definia que as moedas dos países membros passariam a estar vinculadas ao dólar, oscilando numa estreita banda de mais ou menos 1% e, por sua vez, a moeda norte-americana estaria atrelada ao ouro, este a 35 dólares americanos a onça troy, medida equivalente a 31,104g.

Para que tudo funcionasse sem grandes sobressaltos foram criadas duas entidades de supervisão: o FMI – Fundo Monetário Internacional – e o Banco Mundial. Após duas bombas atômicas lançadas sobre o Japão e mais algumas escaramuças em Berlim e Roma foi assinada a rendição do Terceiro Eixo. E ao final da 2ª grande guerra, apenas 1% da força de trabalho norte-americana estava desempregada.

“Só existe uma coisa mais dolorosa do que aprender com a experiência:
não aprender com a experiência.”
archibald mcleish

Durante vinte anos o acordo de Bretton Woods funcionou como previsto. Na segunda metade da década de 60, no entanto, começa a degradação das contas internas norte-americanas e o déficit orçamentário é financiado através da emissão de dólares não lastreados. Resultado: a quantidade de moeda americana que abastecia o mercado excedeu o estoque de ouro armazenado em Fort Knox e, em 1971, para cada 70 dólares circulantes existia por lá apenas 12 em ouro.

Isso passou a gerar sérios problemas para os países membros do acordo pois aquelas emissões também os obrigavam a emitirem a fim de manterem a proporcionalidade do cambio fixo e, conseqüentemente, criavam pressões inflacionárias em suas próprias economias.

Charles de Gaulle, então, exige em ouro o que a França possui armazenado em dólares. A América rejeita a exigência cometendo um nítido ato de bancarrota. A situação fica insustentável e em agosto de 1971 Richard Nixon, unilateralmente, anuncia o fim do acordo de Bretton Woods e extingue o padrão ouro ou seja, a obrigatoriedade da conversibilidade do dólar em ouro.

Os mercados mundiais fecham durante uma semana e quando reabrem o dólar está desvalorizado e os principais bancos centrais intervêm em suas economias para controlarem a situação.

Em Dezembro, é estabelecido o Smithsonian Agreement com um G-10 de onze – Bélgica, Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Holanda, Suécia, Suíça, Reino Unido e América – fixando as novas referências cambiais.

A essa altura o dólar já havia desvalorizado algo em torno de 10%. E a pressão sobre a desvalorização continuou até fevereiro de 1972 quando, novamente, os mercados foram encerrados, reabrindo apenas em Março de 1973 com taxas de cambio livres.
A deterioração da economia americana a partir de meados de 1960, prendia-se ao fato de estarem engajados em duas controversas e dispendiosas frentes de guerra: a do Vietnam, beligerância cara no que tange ao aspecto material – e caríssima em relação ao moral – e a da conquista do espaço, onde gastaram rios de dinheiro para se manterem a frente dos russos.

E nesse particular, de concreto mesmo, a romântica constatação, “la terre est bleue”, e muito, mas muito, mas muito dinheiro mesmo investido nisso. A bilheteria desse pula-pula no recém batizado “Mar da Tranqüilidade”, no entanto, não tardaria a apresentar o custo dos ingressos. E a maré começou a ficar convulsa.

Entre o fim da 2ª Guerra e o final dos anos 60, não obstante a forte desvalorização da moeda americana, o ouro continuava a 35 dólares a onça troy e o preço do barril de petróleo subia menos de 2% a.a., tendo passado de 2 para 3 dólares.

Mas o Smithsonian Agreement, que embutiu a flutuação do câmbio, fez com que em 1973 o ouro chegasse a valer 120 dólares. Ou seja, para comprar uma onça troy eram necessários 34 barris, uma desvalorização em torno de 70%.

Havia um acordo com a OPEP – Organização dos Países Exportadores de Petróleo – de que todas as transações deveriam ser feitas em dólares americanos. E como a América já podia imprimir seu dinheiro sem armazenar o equivalente em ouro, além de conseguir manter, mesmo que artificialmente, sua moeda valorizada, literalmente “comprava petróleo de graça”.

E como Milton Friedman defende a tese de que não existe almoço grátis…

“Quem gosta de abismos deve aprender a criar asas.”
Nuit

Em 1973 o Rei Faissal, da Arábia Saudita, avisou os Estados Unidos que caso a política para o Oriente Médio não fosse alterada o petróleo seria utilizado como arma. A resposta americana foi a de estimular a 4ª guerra Árabe-Israelense. A represália veio em 1974: a OPEP impôs um aumento de preço e o barril mais que dobrou, passando de 4,31 para 10,11 dólares.

Em 79, com a deposição do Xá do Irã, é criada uma república islâmica comandada pelo Aiatolá Khomeini e em novembro quinhentos estudantes extremistas tomam a embaixada norte-americana em Teerã fazendo 66 reféns durante 444 dias. Os Estados Unidos saem humilhados da crise.

O Irã, que com mais de 5 milhões de barris dia respondia por 18% da produção OPEP, baixou-a para 10% e, nos 2 anos seguintes, para 6%. Posteriormente nivelou em 13%. A revolução iraniana fez disparar novamente o preço do petróleo e o barril ultrapassou os 35 dólares no início de 1981.

Na linha de retaliação, o Iraque começa a vender petróleo em euros, quebrando a hegemonia dos dólares americanos no setor petrolífero. Após a segunda invasão daquele país, a moeda de pagamento foi revertida para dólar americano.

Opondo-se a intervenção americana, o Irã contra-ataca e anuncia que seu petróleo poderá ser pago com qualquer moeda, menos com dólares americanos. Por isso, vale o parêntese, a repentina histeria em relação à capacidade do Irã em fabricar sua própria bomba. Nada a ver. É meramente pelo fato daquele país mulçumano haver retirado a escada, deixando a economia americana pendurada na lâmpada. E lâmpada acesa esquenta, registre-se.

Do final da 2ª Guerra para cá, a América não parou de investir em armamentos. A intenção era impedir que a União Soviéticas implantasse o regime ditatorial comunista no resto do mundo.

Paradoxalmente, a partir de então, tanto a Rússia – com Afeganistão e Chechênia – quanto a América – com Baia dos Porcos, Coréia e Vietnã – não obstante a sofisticação e modernidade de seus aparatos bélicos, perderam, absolutamente, todas as guerras nas quais se envolveram. E mais recentemente, mesmo após a deposição de Saddam Hussein, o Iraque continua inconquistável pelos americanos.

Com o Muro de Berlim se transformando, literalmente, em peça de museu, a partir de novembro de 1989 diminuíram consideravelmente os pretextos para o envolvimento americano em qualquer tipo de luta armada.

E foi então, se é que ainda existia alguma dúvida em relação a isso, que a América constatou que sua economia era movida a guerras. E como a roda da fortuna não pode parar, foi necessário inventar novos inimigos da paz planetária.

O Oriente Médio volta a ser a bola da vez. E do clima de ódio que – excitando toda a comunidade islâmica – paulatinamente, conseguem estabelecer, para o fatídico 11 de setembro de 2001, foi um pulo. E daquela vez a humilhação americana foi bem mais foi explícita: dois de seus maiores ícones, Pentágono e Torres Gêmeas, foram atacados com sucesso pelos fanáticos comandados por Bin Laden.

“Em nossa escalada para o poder, iniciada há milênios com a invenção da agricultura,
carregamos uma pesada bagagem de antigos instintos primatas.
como resultado, vivemos numa civilização do tipo “Guerra nas Estrelas”, ou seja,
dominada por emoções da idade da pedra,
instituições com características medievais
e tecnologias que nos dão o poder de brincar com Deus.”
Edvard O. Wilson

Aparentemente, a economia neo-liberal americana, fundamentada em mercados auto-reguladores, funcionava. Porém, com regras hiper flexíveis. Afinal, era a raposa quem tomava conta do galinheiro.

Sem dúvida alguma, vale a ressalva, que não cabe mais ao Estado moderno exercer papel intervencionista. Todavia, para se justificar enquanto arrecadador de impostos e condutor da pacificação social não pode eximir-se, a que pretexto for, de ser o grande regulador das questões que influenciam, diretamente, o bem estar do cidadão, eleitor e contribuinte. Não há espaço para omissões.

O estouro da bolha imobiliária americana foi meramente pontual e nada mais representou que uma aleatória “bola da vez”. Os deuses do hemisfério norte devem ter decidido isso no pôquer, nos dados ou na roleta. Afinal, a quebradeira poderia ter começado por qualquer outro setor da moralmente viciada economia americana.

Naquela maré de ganhos fáceis, também embarcaram União Européia e Japão. Canadá e México, enquanto “estados americanos” já faziam parte desse imbróglio. A crise atual, portanto, afeta, diretamente, América do Norte, Canadá, México, União Européia e Japão. Indiretamente, todo o planeta. Afinal, a aldeia é global.

Mas a conta dessa concupiscência financeira, com apenas a ponta desse iceberg sinalizando algo em torno de 10 trilhões – estamos conversando em moeda podre, dólares – é para ser cobrada, apenas, dos que dela participaram e portanto, muito em breve seus atores principais serão convidados pelo mercado a abdicarem do podium.
E como o Homem ainda não conseguiu inventar o vácuo, estamos assistindo ao início da era pós-hegemônica norte-americana. Daqui para frente, os hoje chamados países emergentes ganharão força no cenário político, financeiro e econômico internacional.

Estamos assistindo a derrocada de um império e a ascensão de seus ex-vassalos. Vamos torcer para que se estabilizem em uma convergência e, a partir de então, já sob a ótica de um juízo maior, caminhem juntos rumo à solidificação de um ordenamento ético bem mais profícuo.

A América do Norte, é bom que façamos o registro, foi o país que no menor espaço de tempo mais contribuiu para o avanço tecnológico planetário ao longo de toda a sua história e, talvez, nesse nosso brevíssimo relato, possamos estar dando a impressão de que não gostamos do país irmão do norte ou da própria União Européia. Não, não é isso não.

O que vimos procuramos alertar durante esse relato é que, por conta do “estado de guerra permanente”, da mesma forma em que desenvolvia tecnologia de ponta, na exata proporção, uma série de valores morais iam sendo descartados e substituídos por uma competição destrutiva, amoral, viciada, desumana, predatória.

Por conta disso, alcançou o status de ser a primeira nação da história a conseguir completar o ciclo de ascensão, apogeu e queda no mais curto espaço de tempo até aqui registrado: um século.

Entra para o Guiness Books como recorde negativo. E sem qualquer expectativa concreta de revertê-lo para um grand finale, independentemente do colorido do discurso do presidente que por lá estiver de plantão.

A atual débâcle do dito primeiro mundo, e por mais que os analistas se esforcem para encontrar substância nessa linha de raciocínio, não é de origem econômica e, muitíssimo menos, financeira: é, exclusivamente, sócio-moral.

“Quando os ventos da mudança sopram,
alguns constroem abrigos, outros, moinhos.”
Claus Möller

Aqui pelo Brasil, mais notadamente a partir de 2002, a área econômica, não obstante todos os percalços de trajeto, vem sendo conduzida com diplomacia, discrição, firmeza e, fundamentalmente, muito bom senso. Nada de rompantes nacionalistas. Nada de ameaças descabidas. Nada de promessas que não sejam viáveis. Nada de oba-oba.

A partir disso, nossa economia vêm conquistando sucessivos e expressivos resultados que, em efeito cascata, alimentam recordes que se acumulam em todos os setores.

Não se constrói um país da noite para o dia. Nem se o quebra, como já observamos no transcorrer dessa narrativa. O sucesso ou o fracasso, sempre, estão atrelados ao entendimento, ou não, de que só é possível haver êxito sustentável a partir da deflagração de um processo que contemple em seus fundamentos a ética, o conhecimento, a disciplina e a persistência.

Não há potes de ouro enterrados nas extremidades dos arco-íris.

Os inéditos números da atual conjuntura econômica brasileira nos dão a tranqüilidade de entender que, continuando pela mesma rota que já estamos percorrendo, os incômodos desse ajuste de contas do primeiro mundo consigo mesmo serão, por nós, perfeitamente contornados.

Hoje, as exportações brasileiras respondem, apenas, por 13% do PIB. Há um mercado interno pujante garantindo o crescimento sustentado do país. Ou seja, a crise é lá. A crise é de quem a vem embalando em berço de ouro desde seu nascedouro.

O Brasil é a única grande economia analisada no Indicador Composto Avançado da OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – que não terá uma forte desaceleração de sua atividade econômica. Essa notícia foi muito pouco divulgada pela mídia.

Aliás, hoje, esta nossa sociedade pós-moderna, ou sociedade da informação, é aquela em que as coisas não são o que são, mas aquilo em que se tornaram. Trata-se da sociedade-espetáculo, à qual se refere Gilberto Dupas, onde há muita circulação de informação e baixíssima densidade reflexiva: a tecnologia domina o cenário da informação criando heróis e bandidos. Os jogos de imagem definem a essência e constituem as coisas. Por isso hoje, mais importante que o fenômeno em si é a sua aparência na mídia.

Aqui pelo Brasil não é diferente. Na contra mão da história, e completamente descolada do ambiente democrático, salvo raríssimas e honrosas exceções existe uma mídia tresloucada que, como se ungida por algum deus subalterno, ignora os fatos e cria, acima do bem e do mal, versões próprias, como se estivesse a soldo de partidos políticos interessados em desestabilizarem a equipe governamental a fim de ampliarem suas expectativas de assumir o poder em 2010 ou a serviço do corporativismo de determinados segmentos que pretendam, momentaneamente, aproveitarem-se de falsas notícias pontuais, em detrimento da tranqüilidade de toda a sociedade brasileira.

Entretanto, esses comportamentos nocivos não conseguirão adernar o país. Tanto esses maus brasileiros travestidos de jornalistas quanto os que deles se utilizam para perpetrarem seus desígnios egoisticamente perversos, acabarão afogados na marola de uma crise que não chegará por aqui.

Serão rechaçados por uma sociedade que não mais tolera a charlatanice, a indignidade, a falsa devoção, o jogo sujo, a hipocrisia, “o gosto de levar vantagem em tudo, certo?”.

“Não existe terra estrangeira. Estrangeiro é o viajante.”
Robert Louis Stevenson

Essa crise, muito benéfica ao contexto mundial se a olharmos sob um prisma de médio para longo prazo, se transforma em divisora de águas.

Destruindo bezerros de ouro e templos que, ainda hoje, dependem literalmente de sacrifícios humanos, possibilita que, finalmente, emirja uma consciência planetária mais ajustada com os anseios de uma modernidade que se cunha nos contornos da disseminação do conhecimento, do respeito pelas diferenças, do trabalho produtivo, da remuneração justa, do consumo parcimonioso, da eliminação das ancestrais e caducas querelas territoriais e religiosas entre os povos e do sumo entendimento de que, em momento algum da história, houve algum registro de que tenha sido bom ganhar sozinho.

Somos animais sociais por excelência. E portanto, contrariamente a lei da física, nas relações humanas os opostos não se atraem. Assim sendo, quantos mais iguais houver tanto melhor. E isso só é plausível de ser conseguido na medida em que, mais e mais, nações e pessoas consigam inserir-se e usufruir das estupendas conquistas perpetradas pelo Homem até então.

Nesse momento histórico para a humanidade, e do qual somos todos protagonistas, ao empresariado brasileiro sintonizado com a modernidade cabe não se deixar levar pelas alarmantes notícias de uma mídia irritadiça, nervosa, histérica ou, em alguns casos, pior que isso, venal, e continuar gerenciando seus empreendimentos com ética redobrada a fim de não descolar os seus negócios de uma massa consumidora interna que emerge pujante.

É necessário que nos apercebamos que não somos mais uma nação de vira-latas e que a hora de crescer é agora. Ou melhor, de continuarmos crescendo. Não há crise no Brasil. Pelo contrário. O que há são inéditas oportunidades.

Comungar desse juízo, no entanto, é questão de foro íntimo, é inalienável, sagrado e personalíssimo entendimento de cada qual.

“A avaliação final de sua vida não será feita pela apreciação de quão bem você viveu,
mas sobre quão bem, ou não, viveram outras pessoas por causa de você.”
William Henry Gates III





Sobre o Creative Commons

25 02 2009








A Comunicação como construto da Sociedade Global

14 06 2008


Trecho extraído do artigo: Cibercultura e Presença – Um paralelo entre as Relações Humanas e a Sociedade Global, de Camila Santo, COPPE junho de 2008)

Nas sociedades orais, as mensagens lingüísticas eram partilhadas por emissores e receptores, dentro de um universo próximo de significado. Os atores da comunicação utilizavam o mesmo campo semântico, compartilhavam o mesmo contexto, e dividiam o mesmo tipo de fluxo de interação. A invenção da escrita abriu um espaço de comunicação desconhecido pelas sociedades orais, no qual se tornava possível tomar conhecimento de mensagens geradas por pessoas situadas à distância ou preservá-las por séculos, mesmo se os atores da comunicação não estavam em interação direta. Estas características tornaram a escrita o núcleo da racionalidade humana e acabaram oferecendo ao pensamento à possibilidade de se tornar universal.

Com a evolução da escrita nas civilizações, apareceu a necessidade de elaborar sua recepção, para que fosse possível haver mais receptores. Surgiram então as artes da interpretação, da tradução, e toda uma tecnologia lingüística (gramáticas, dicionários, etc), que correspondiam à idéia de Universalidade, enunciada nos Elementos de Euclides. Estes Elementos representavam um tipo de mensagem que não teria pertinência alguma na anterior sociedade oral. Assim, mesmo se permanece após sua invenção, a figura do intérprete (com papel central nas tradições orais), nasce uma nova figura, na comunicação: a do autor (típico da nova cultura escrita), que viabilizou ao ser humano, um auto-posicionamento no seu próprio discurso.

A revolução industrial mudou a configuração da experiência do cotidiano através do crescimento do tráfego urbano, da distribuição em massa dos produtos de consumo e dos novos meios de transporte e comunicação. Até a chegada da televisão, o cinema foi o mais singular e expansivo horizonte discursivo no qual os efeitos da modernidade foram refletidos, rejeitados ou negados, transmutados ou negociados, se transformando então em discurso social.

O livro, O Cinema e a Vida Moderna (2001), situa a visão como o instante da presença na sociedade pré-global, transformando este sentido no centro da atenção do corpo, e por conseqüência no centro da análise mental, incluída nos discursos. Com a chegada do som no cinema, os impactos visuais e auditivos consumidos em massa, promoveram um bombardeio permanente de experiências subjetivas que provocou choques perceptivos e físicos cada vez mais abrangentes, acionando constantemente os atos reflexos e impulsos nervosos em todos os tipos de indivíduos causando-lhes tensões viscerais e agregando um tom de ansiedade generalizado ao ambiente urbano da sociedade. Dessa forma, desde a invenção da linguagem cinematográfica, o corpo humano foi obrigado a socializar-se e nesse processo estabeleceu-se um domínio somático do ego sobre a formação de conhecimento. Este domínio foi acompanhado por uma regulação da atenção e padronização da percepção, aspectos que constituíram um dos espaços cognitivos da modernidade.

Com a representação do homem pelo aparelho, a auto-alienação humana encontrou uma aplicação altamente criadora.

Walter Benjamin (1993)

Para Benjamin (1993), o cotidiano designa a forma pela qual a experiência diária de produção e reprodução de atividades é moldada pela conjunção entre a lógica capitalista da mais-valia, a industrialização, a urbanização e a crescente automação, e abstração da formação social dominada pela burguesia. O cinema significa uma “mudança repentina constante”, um choque na vida moderna, que provoca sensações efêmeras acentuadas que atingem o sujeito com grande intensidade. Uma fenomenologia específica se concretiza assim na invenção de novos gêneros e estratégias de representação, resgatando a possibilidade de experiência sensorial em face do caráter efêmero da modernidade.

Benjamin (1993) vê uma guinada épica na direção da produção para as massas codificada além do cinema, na arquitetura, nas tendências da moda, nos eventos e instituições da alta cultura capitalista, que provocaram impacto profundo sobre toda e qualquer prática cultural. O conceito de cultura de massa e sua relação com o cinema, leva em conta a mistura, real e sem precedentes, de classes sociais, gêneros e gerações. Este conceito deriva de qualidades estruturais de da reprodução técnica: uniformidade, replicabilidade e proximidade.

Com o advento da televisão se apresenta um novo paradigma de comunicação em massa de nível internacional, que para McLuhan (1996) se integra com tecnologias planetárias (satélites), embora de forma limitante (ainda unidirecional). Em Meios de Comunicação como Extensões do Homem, o autor introduz a questão do impacto sensorial na comunicação humana, na fórmula: o meio é a mensagem. A sociedade começa a se configurar a partir deste advento como uma “Aldeia Global”, uma metáfora que o autor cria para definir a sociedade. Nesta aldeia, a forma de um meio social tem a ver as novas maneiras de percepção instauradas pelas tecnologias da informação. Os próprios meios são a causa e o motivo das estruturas sociais.

Lemos (2004), reconhece singularidades na obra de McLuhan (1996) com a atualidade, pelo fato de ter sido pioneira na descrição da sociedade mediática, mas, acrescenta que os meios de comunicação de massa (incluindo a imprensa e o rádio) apenas seguem uma linha cultural totalizante que já havia sido iniciada pela escrita. No caso das mídias de massa, a mensagem mediática será também, lida, ouvida, e vista pelas pessoas do mundo afora; só que dessa vez, de maneira a encontrar, ou até impor, uma capacidade interpretativa comum aos seus receptores.

Portanto, a verdadeira ruptura com a pragmática da comunicação estabelecida pela escrita não pode vir à luz com o rádio ou a televisão, pois esses instrumentos de difusão em massa não permitem nenhuma verdadeira reciprocidade, tampouco interações transversais entre os participantes. Em vez de emergir das interações vivas de uma ou mais comunidades, o contexto global instaurado pela mídia fica fora do alcance dos que consomem, sujeitos apenas a uma recepção passiva, isolada. Os correios, o telefone, a imprensa, as editoras, as rádios, as incontáveis redes de televisão formam apenas um espaço de interconexão aberto, que hoje são muito mais animados graças às comunicações transversais e os processos de inteligência coletiva encontrados na Internet.