(Este texto é um resumo adaptado de um comentário que fiz a um post do Raolino, onde ele perguntava se a Dialética tinha ficado Espremida quando refletia sobre Redes Sociais Distribuídas, se enxergando como um velhinho frente a possibilidade de uma realidade sem centro ou ideologias, e ainda assim com alguma organização. Interessante apenas para fanáticos no tema, já vou avisando. E obs: “velhinho na rede” é o nome do blog dele. “Velhinho” é o Hegel eu respondi, “mas se isso importasse não teríamos Sócrates, Platão e Aristóteles”)
Me parece que as coisas complexas sempre acabam sendo compreendidas quando explicadas da forma mais simples.
Me lembro de ter feito um comentário sobre as Redes de Relacionamento (facebook, orkut, etc) tecnicamente serem “redes sociais”, baseada nos princípios da SNA. Existe um ponto ideológico que talvez tenha mudado na geração dos novinhos. É a curiosidade de saber as coisas mais pela experiência (Varela). Pois ela cria a diferença entre saber que não se deve poluir o planeta e encontrar uma forma de seduzir os outros para não fazê-lo.
Importa mesmo chegar ao lugar do que é “rede”? Tem mesmo de haver UMA definição? Quero entender o motivo? Se a “rede” são as pessoas, as pessoas não trariam mais respostas para o conceito, do que o que foi pensado fora de um ambiente-rede-aqui-agora?
Algumas respostas (ex: “organização em rede distribuída é possível?”) talvez não venham da compreensão do estado-da-”rede”, ou da estrada-”pensar-rede”, mas sim da observação das redes reais de pessoas aqui presentes, carregadas, em geral, de dicotomias, que podem ser até mais enriquecedoras para o conhecimento, do que as ideologias que as movem, ou que as teorias que as apoiam. Pessoas de cidades, países, idades, línguas, ideologias diferentes hoje conseguem conversar. E quanta riqueza já não cabe em um só cérebro?
Falar em dialética é um ponto que gostei, pois afinal, o que estamos observando já sabemos (todos fazemos concretamente parte da mesma “rede” dentro da qual já estamos interagindo). Como o Augusto de Franco já disse bem, “rede” já existia antes do conceito. Creio somente que não precisamos da resposta para “o que é rede?”, mesmo se a pergunta é boa (gera muitos comentários), pois só saberemos alguma coisa realmente, se o conhecimento obtido nestas trocas de informação gerar algum tipo de relação. Assim, me parece que se a pergunta gerar relação, a resposta não precisa acontecer. As próprias relações gerarão as situações para elucidar o conhecimento.
Voltando as referências da minha geração, por exemplo: grande parte da língua maia ficou perdida muito tempo, deixando uma antiga ciência desconhecida, até que alguém se deu ao trabalho de observar a relação entre os hieroglífos, há menos de vinte anos. Pela recorrência, os sentidos foram se definindo. Hoje, as linguagens mais banais de inteligência artificial utilizam a mesma técnica. E muito mais está ainda para vir, os maia identificavam três dimensões para o tempo. Da mesma forma, se ficassemos observando todos os tipos de código genético (ou focando em um só tipo que fosse, por ideologia), nunca teríamos descoberto como a coisa funciona.
Além das relações, se quisermos entrar no campo da ciência, da organização, da democracia e da filosofia, tudo-ao-mesmo-tempo-agora, talvez seja possível se não olharmos para os lados das questões (pois se não existem paredes nessa tal “rede”), ou se não nos concentrarmos nas definições (pois se chegamos aqui movidos por perguntas), ou se não nos apoiarmos em nomes (pois se não existe hierarquia de poder a seguir).
Eu enxergo o grau de distribuição de uma rede sendo proporcional ao engajamento de seus componentes e à exata medida de sua ação ali. Talvez algumas respostas estejam situadas num passado remoto, onde ainda não havia ideologia, mesmo se a política ainda é o pilar da organização da sociedade atual. Talvez as redes sociais não sejam estudadas pela biologia à toa. Quando não existe, de fato, a questão poder, os assuntos ficam menores, do tamanho de situações específicas que aí conseguimos elucidar através da pura interação entre indivíduos.
Acho que a dialética não diminuiu sua utilidade, apenas o seu espectro de reflexão ficou mais complexo, e ela nunca foi coisa simples de entender.
Provérbios duram mais que teorias científicas.